Nos veios ocultos do real concreto,
onde o tempo não dobra nem suplica,
pulsa a matéria em seu lume inquieto,
forjando o mundo que a si se explica.
Nada se aparta, nada se evade,
tudo ressoa no mesmo fulgor:
a luz que tomba, a sombra que invade,
o caos em dança, no deserto, o clamor.
Não há um fôlego além do corpo,
nem verbo antes do sopro infindo,
pois ser é força sem molde
no eterno embate do irrestrito.
Toda potência se faz presença,
toda ausência é ingênua ilusão,
o que fulgura, o que é essência,
se ergue desse mesmo chão.
Nenhuma mão move as marés,
nenhum sopro é sem raiz,
somos matéria, sonho e revés,
somos do abismo a divina matriz.
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