A sala posta, o véu rendado,
a mão que treme, o olhar de aço,
no vão da porta um vulto alado,
o coração batendo em falso.
Sorrisos gastos, gestos frios,
peçonha oculta sob a flor,
no vinho há fel, na noite, estios,
na jura doce, um dissabor.
O amor? Um crime sem castigo,
um fogo em febre, em sombra ardente,
um laço feito em nó antigo,
que se desfaz, fatalmente.
No lar perfeito, o pranto tomba,
na missa há risos de ironia,
o bem é máscara que assombra,
o mal também tem lá sua poesia.
E assim se vai, sem redenção,
entre traições e hipocrisia,
quem muito sonha perde o chão,
quem muito enxerga, a luz esfria.
E assim se vai, na contramão,
entre a margem e a esquina,
quem muito sonha perde a mão,
quem muito enxerga, vive a melancolia.
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