sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Em defesa de alguma coisa

Essa gente que grita e se afirma altiva,

que hasteia bandeiras sem sequer saber,

defendendo verdades a si lenitivas,

moldando o real ao seu bel-prazer.


Essa gente que se arrasta nesse buraco,

que se esfrega à própria ignorância,

defendendo sentenças de puro atraso,

moldando o real numa insignificância.


Erguem bandeiras com fúria fingida,

em defesa de causas que mal conhecem.

Gritam palavras de ordem vazias,

discursos comprados que nem se percebem.


São tantos, são todos, vozes tão iguais,

um coro disforme que ecoa no nada.

Repetem ideias das mais banais

e marcham unidos, sem rota traçada.


Olho ao redor e só vejo os navios,

fantasmas perdidos num mar de tolices.

Velas ao vento de ideias falidas,

guiadas por faróis de falsos messias.


O que defendem? Nem mesmo sabem.

A qualquer preço, uma identidade.

É o peso de existir sem essência,

vestindo qualquer roupa pra adequar-se.


E eu, sujeito, entre eles me afogo,

não na corrente, mas na solidão.

Sou ilha cercada de vozes confusas,

que gritam certezas sem convicção.


É torturante ser um entre poucos

que veem o fio da manipulação.

Enquanto dançam, felizes e cegos,

sem perguntar-se qual é a razão.


Ah, que tragédia ser consciente

num mundo onde o tolo reina absoluto.

Eles vivem num sonho de frases feitas,

e eu, no pesadelo de enxergar o absurdo.


Em defesa de alguma coisa, qualquer coisa,

erguem estandartes de identidades forjadas.

E eu, sozinho, não ergo mais nada,

a não ser a tristeza de ver o que me rodeia.


A não ser a razão que me desampara,

a não ser meu espírito que tudo questiona,

a não ser minha teimosia que não aceita,

a não ser este verso, que aqui mesmo se encerra.

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