Vem do fundo da serra um rumor de cascos,
não é tropa nem gente, é o céu que se move.
A tarde mastiga um silêncio de pastos
e a terra, morena, sua lágrima revolve.
Meu cavalo fareja o vento mudado,
baixo a aba do chapéu contra o clarão.
Cada raio riscando o campo alagado
é uma reza bravia cortando o chão.
Trovoada, irmã velha dos cerros,
bate o bombo do mundo no meu coração.
Teu tambor de água grossa nos ferros
lava a mágoa e tempera o facão.
Sou filho do barro, do pó levantado,
aprendi com o tempo a não recuar.
Se o destino é caminho fechado,
faço trilha onde o medo quer me amarrar.
Quando a noite desaba em espora e estalo
e o horizonte se parte em clarim,
canto baixo pra não assustar meu cavalo
e a tormenta faz ninho em mim.
Trovoada, não venhas por guerra,
vem molhar esta sede ancestral.
Que teu grito fecunde a terra
e me ensine o silêncio final.
Se amanhã o sol nasce lavado,
sobre o campo que a chuva domou,
fica um cheiro de mundo criado
como se Deus, de novo, legou.
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