quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Trovoada

Vem do fundo da serra um rumor de cascos,

não é tropa nem gente, é o céu que se move.

A tarde mastiga um silêncio de pastos

e a terra, morena, sua lágrima revolve.


Meu cavalo fareja o vento mudado,

baixo a aba do chapéu contra o clarão.

Cada raio riscando o campo alagado

é uma reza bravia cortando o chão.


Trovoada, irmã velha dos cerros,

bate o bombo do mundo no meu coração.

Teu tambor de água grossa nos ferros

lava a mágoa e tempera o facão.


Sou filho do barro, do pó levantado,

aprendi com o tempo a não recuar.

Se o destino é caminho fechado,

faço trilha onde o medo quer me amarrar.


Quando a noite desaba em espora e estalo

e o horizonte se parte em clarim,

canto baixo pra não assustar meu cavalo

e a tormenta faz ninho em mim.


Trovoada, não venhas por guerra,

vem molhar esta sede ancestral.

Que teu grito fecunde a terra

e me ensine o silêncio final.


Se amanhã o sol nasce lavado,

sobre o campo que a chuva domou,

fica um cheiro de mundo criado

como se Deus, de novo, legou.

Nenhum comentário:

Postar um comentário