Vencer no amor é já perder-se em si,
Pois quem se entrega abdica do governo;
O passo é livre, e, livre, torna eterno
O doce erro em que a alma ousou cair.
O amor, que solta as rédeas do porvir,
Faz do querer um cárcere moderno:
Prende mais fundo quanto é mais fraterno
O laço invisível a nos conduzir.
Mesmo liberto, o amante se faz preso,
Cativo do prazer que o faz contente,
Vivendo o ardor que escolheu coeso.
Ama, e no amar repete, inconsequente:
Vencer no amor é naufragar ileso,
Perder-se inteiro, para ser presente.
*
Se no perder-se o amor se fez morada,
Já não desejo a intacta autonomia:
Prefiro a luz que dói, mas irradia,
À sombra de uma paz desabitada.
Pois quanto mais a alma é dominada,
Mais reina, estranhamente, em seu querer;
Serve ao amor — e aprende, ao se render,
Que a servidão pode ser coroada.
Não há vitória em ser senhor de si
Quando o coração, mudo e resistente,
Se nega ao dom que pede para ir.
Melhor cativo, lúcido e ardente,
Que livre e só, guardando o que perdi
Por não ousar amar suficientemente.
*
Vencer no amor é dar-se sem temor,
Não por fraqueza, mas por escolha inteira;
É passo livre em direção verdadeira,
Onde a coragem assume a forma do amor.
Não prende o amor quem ama com rigor:
Quanto mais solto, mais firme a maneira
Com que dois rumos, sem perder fronteira,
Se encontram plenos no mesmo fulgor.
Entrega livre não dissolve o eu,
Antes o expande em lúcida presença,
Como quem cresce ao partilhar o céu.
Vencer no amor é esta recompensa:
Querer o outro sem perder o seu,
Ser dois inteiros na mesma esperança.
*
Não trago a ti correntes nem promessas,
Mas o fruto exposto ao sol da estação;
Jovem e inteiro, alheio à contenção,
Que se mantém conforme o cultivas.
Teu gesto inclina o dia, e nele ingressas
Como quem muda o eixo ao caminhar;
Não me desfaço ao risco de ficar:
Mais claro sou por onde passas.
Assim, não perco o nome nem a voz,
Nem troco a forma íntima do ser;
Sou mais exato quando estamos nós.
E se há vitória, é simples de dizer,
Sem rodeios nem vãs filosofias:
Vencer no amor é amar você.
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