quinta-feira, 5 de março de 2026

Sobre o privilégio

Não tive o berço d’ouro da abastança,

Nem sonhos fartos à sombra da opulência;

Coube-me o pão que a rude circunstância

Pisa o diabo, em dissimulada irreverência.


Outros, porém, na plácida bonança,

Vivem sem dor, sem luta ou resistência;

Corre-lhes mansa a vida, em segurança,

Ensalada em tédio a fácil existência.


Mas qual o privilégio dessa sorte?

Nadar em mar de tédio, num rodeio,

Naquilo sem valor sendo tão caro?


Desse vão ridículo prefiro a morte!

Pois nem serve de triste o fútil fado.

E mastigo orgulhoso o pão do diabo.

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