domingo, 1 de março de 2026

Suave é viver só

Suave é viver só, quando na aurora

A alma desperta em nívea claridade,

E, livre da impostura da cidade,

Conversa em si, serena e sem demora.


Suave é viver só, se o mundo afora

Não vai a teu encontro e não lhe acolhe;

Que a solidão é templo da verdade

Onde a ilusão de um ninho se evapora.


Não é desdém da turba ou desalento,

Nem fuga vil ao humano desconcerto:

É recolher-se no íntimo caminho.


Pois há doce força no silêncio certo,

E encontra o coração, sozinho,

O próprio sol em seu deserto.



Suave é viver só, depois da queda

Do sonho azul que o amor teceu outrora;

Que a rosa, ao fim da tarde, já não flora,

E o céu mais puro em sombra se envereda.


Suave é viver só, quando se enreda

A fé nas mãos da ausência que devora;

Melhor o ermo da alma que, sonora,

A falsa jura em lábio que a desmeda.


Não quero mais o lume que me ilude,

Nem a promessa vã, dourada e fria,

Que em doce fel coração invade.


Prefiro a paz austera da solitude,

Onde não sangra a antiga fantasia,

Nem chora o engano sob o nome “saudade”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário