Suave é viver só, quando na aurora
A alma desperta em nívea claridade,
E, livre da impostura da cidade,
Conversa em si, serena e sem demora.
Suave é viver só, se o mundo afora
Não vai a teu encontro e não lhe acolhe;
Que a solidão é templo da verdade
Onde a ilusão de um ninho se evapora.
Não é desdém da turba ou desalento,
Nem fuga vil ao humano desconcerto:
É recolher-se no íntimo caminho.
Pois há doce força no silêncio certo,
E encontra o coração, sozinho,
O próprio sol em seu deserto.
Suave é viver só, depois da queda
Do sonho azul que o amor teceu outrora;
Que a rosa, ao fim da tarde, já não flora,
E o céu mais puro em sombra se envereda.
Suave é viver só, quando se enreda
A fé nas mãos da ausência que devora;
Melhor o ermo da alma que, sonora,
A falsa jura em lábio que a desmeda.
Não quero mais o lume que me ilude,
Nem a promessa vã, dourada e fria,
Que em doce fel coração invade.
Prefiro a paz austera da solitude,
Onde não sangra a antiga fantasia,
Nem chora o engano sob o nome “saudade”.
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