quarta-feira, 25 de março de 2026

Soneto Noturno

O vampiro, à noite, ergue seu cálice vazio,

E a lua — prata fria — lhe destila o licor raro:

Bebe a penumbra em goles homeopáticos,

Diluídos no tempo, amargos de desafio.


Nas esquinas, a boemia é sangue que escorre

Dos bares mal fechados, dos amores falidos,

Dos sambas que choram em versos esquecidos —

E ele, sedento, a tudo isso devora e morde.


Não quer a vida inteira, pesada de dia,

Mas o gole preciso, o instante, a magia

De quem sobrevive à morte em cada taça.


E assim, entre a rua e a madrugada vaga,

Vai sugando a cidade, gota após gota,

Até que a aurora venha — e ele se desfaça.

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