Num lúcido torpor minh’alma se suspende,
Clareza fria em véu de entorpecida calma;
Mais penso — e mais o mundo, exausto, assim me rende,
Como se a vida fosse um eco vago n'alma.
Vejo tudo demais, e o excesso nada entende:
A dor, o riso, o bem — tudo se torna nada
De um gesto indiferente, onde o sentido pende
E o peso do real se dissolve e se acalma.
Ah! lúcida prisão que o ser em névoa envolve,
Onde a razão, cansada, o próprio ardor dissolve
E o pulso da paixão se exaure e brando jaz;
Pois tanto vê meu ser, que o ver se torna vão,
E a própria existência, em lânguida razão,
Cai na tranquilidade de um tanto faz.
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