sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Ofício Imperfeito

I

De mil coisas que escrevo, uma ou três

Talvez se salvem, o resto se condena.

Mas sigo, até que a língua, tendo pena,

Se condoa do fardo que lhe impus, talvez.


Escrevo até que o verbo em mim se fez

Matéria e forma, pura e serena,

E a palavra, em súplica pequena,

Entorne a pena e escreva em meu revés.


Se a técnica cala, a pulsão ainda impele,

Pois cada letra é intento, mesmo que breve

Se aninha em mim, pedindo algum lugar.


E assim, no vão ofício de insistir,

É a pulsão que dita e, antes de fugir,

Deixa o poeta em paz, por se encontrar.


II

Escrevo, pois, qual náufrago outra vez,

Que em alto mar se busca e se envenena;

Depois me leio e a alma, tão pequena,

Revê-se em cada linha que tracei.


Escrevo para ver no que me fez

O verbo, em sua febre tão terrena;

E, às vezes, do erro nasce a coisa plena,

Raro clarão do belo que não busquei.


Não quero a perfeição, não me flagelo

Por versos que não chegam ao mais alto;

Prefiro o risco, o gesto, o experimentar.


Pois quem escreve apenas por acerto

Não sabe o dom que nasce do deserto,

Nem sente a dor que faz o verbo amar.

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