I
De mil coisas que escrevo, uma ou três
Talvez se salvem, o resto se condena.
Mas sigo, até que a língua, tendo pena,
Se condoa do fardo que lhe impus, talvez.
Escrevo até que o verbo em mim se fez
Matéria e forma, pura e serena,
E a palavra, em súplica pequena,
Entorne a pena e escreva em meu revés.
Se a técnica cala, a pulsão ainda impele,
Pois cada letra é intento, mesmo que breve
Se aninha em mim, pedindo algum lugar.
E assim, no vão ofício de insistir,
É a pulsão que dita e, antes de fugir,
Deixa o poeta em paz, por se encontrar.
II
Escrevo, pois, qual náufrago outra vez,
Que em alto mar se busca e se envenena;
Depois me leio e a alma, tão pequena,
Revê-se em cada linha que tracei.
Escrevo para ver no que me fez
O verbo, em sua febre tão terrena;
E, às vezes, do erro nasce a coisa plena,
Raro clarão do belo que não busquei.
Não quero a perfeição, não me flagelo
Por versos que não chegam ao mais alto;
Prefiro o risco, o gesto, o experimentar.
Pois quem escreve apenas por acerto
Não sabe o dom que nasce do deserto,
Nem sente a dor que faz o verbo amar.
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