A esquerda brasileira (revolucionária), ao longo das últimas décadas, tem demonstrado uma persistente dificuldade em articular suas forças políticas de modo a disputar efetivamente o espaço parlamentar com identitários e liberais (de direita e esquerda). As suas cisões internas, atualmente muito bem ilustradas no conflito entre lideranças como Nildo Ouriques e Jones Manoel, exemplificam essa tensão entre princípios ideológicos e prática política. Tais conflitos não se limitam a divergências retóricas, mas refletem disputas concretas sobre como e onde a esquerda deve posicionar-se diante do Estado e do Parlamento.
Vladimir Safatle já questionou se a esquerda, em seu estado contemporâneo, estaria “morta” ou apenas desorientada. Essa reflexão se revela pertinente ao observarmos que, em meio a debates intensos sobre a estratégia revolucionária, o que se produz frequentemente são rachas internos e disputas de interpretação histórica, em vez de ações concretas para intervir nas instituições e pautar o debate público. A fragmentação em correntes específicas — cada uma com seu dogma, sua narrativa e sua agenda moral — tem impedido a construção de um projeto de esquerda capaz de assumir o Parlamento como ferramenta de transformação, não como fim em si mesmo.
A tese da RB, reivindicada por Nildo é assertiva ao demonstrar que o trato midiático sobre temas centrais da realidade nacional e o caminho da Revolução Brasileira, quando mediado pelas mídias digitais, reproduz a mesma lógica dos monopólios de comunicação tradicionais: a busca incessante por audiência e repercussão imediata. Em vez de priorizar análise crítica, rigor teórico e aprofundamento político, a disputa nas redes tende a valorizar o espetáculo, o conflito e a polarização midiática. Nesse contexto, mesmo projetos ou correntes com compromisso genuinamente revolucionário veem-se pressionados a adaptar sua mensagem a formatos simplificados, sensacionalistas ou performativos, dissipando a densidade de suas propostas e reduzindo a política revolucionária a um consumo rápido de likes, retweets e compartilhamentos, sem impacto concreto sobre a estrutura institucional ou a consciência coletiva.
Não se pode, contudo, reduzir a crítica à mera análise acadêmica (por mais assertiva que seja), tampouco se deve renunciar aos meios de mobilização em nome de um rigor teórico extremo, que permanece restrito a grupos de estudo marginais — eternos esperançosos, no sentido da ingenuidade da esperança e do estar à espera da revolução, como os cristãos aguardam a vinda de Cristo. A práxis, em suas múltiplas vias possíveis, deve ser ao mesmo tempo objeto e instrumento da crítica: o sucesso de mobilização que Jones Manoel alcança nas mídias digitais, por exemplo, demonstra que é possível combinar discurso teórico com alcance prático — ainda que ele recorra a autores incompatíveis entre si, como aponta a crítica de Nildo. Entretanto, esse potencial se perde quando a prática se limita a debates sensacionalistas ou a conflitos de lideranças e projetos (e suas ausências), visíveis no PCB, PCdoB, PCBR, PSOL, PT e demais correntes. A unidade estratégica da esquerda revolucionária parece tanto impossível quanto indesejada, muitas vezes por motivações egoicas de lideranças que priorizam protagonismos pessoais em detrimento da construção coletiva de pautas revolucionárias. Assim, mesmo iniciativas que poderiam se traduzir em mobilização concreta acabam contornando o Parlamento e se confinando a espaços simbólicos, reforçando o problema que se propõe a criticar: uma esquerda capaz de rigor teórico, mas incapaz de se efetivar politicamente.
Diante disso, a crítica central não reside na existência de divergências, que são inevitáveis e saudáveis, mas na forma como estas se reproduzem: afastam a esquerda da ação política concreta e reduzem o Parlamento a um território contornado por debates internos, enquanto o único espectro que efetivamente ronda o espaço legislativo é o espantalho do comunismo, falácia brandida de forma arguta pela direita (não mencionarei os identitários, me limitando a centralidade da Revolução Brasileria). A ausência de estratégia coletiva para instaurar pautas revolucionárias no Legislativo limita a atuação da esquerda a comentários acadêmicos e manifestações simbólicas, sem repercussão material sobre o processo político real.
Critico, portanto, em última análise, os sucessivos ataques de Jones a Nildo, injustificáveis e redundantes, claramente orientados por um cálculo eleitoreiro que busca evidência por meio de polêmicas. Em contrapartida, não desconsidero a importância da atuação midiática; ao contrário, entendo que ela deve ser conduzida por agentes rigorosos, capazes de articular teoria e prática política sem negligenciar a estratégia de mobilização. Nildo, a meu ver, não incorre nesse erro, pois limita sua intervenção a responder, de maneira fundamentada, aos ataques que recebeu, preservando assim o equilíbrio entre rigor crítico e posicionamento público. Creio que Nildo poderia orientar Jones nesse caminho, mas lamento a cisão já dada.
Em última instância, a disputa pelo conteúdo da revolução brasileira permanece à margem do Parlamento. Não é o local de confrontação de ideias apenas, mas de implementação de políticas e construção de hegemonia. Enquanto a esquerda revolucionária continuar a tratar o espaço institucional apenas como terreno simbólico, e não estratégico, continuará contornando o Parlamento em vez de ocupá-lo. A política, portanto, não pode ser reduzida ao eleitoral, mas deve utilizar o instrumento eleitoral para abrir caminhos de transformação estrutural, o que exige unidade mínima de ação e visão estratégica. Até que isso ocorra, o espectro vermelho permanecerá circundando o Parlamento, incapaz de transformar sua presença em força material capaz de disputar o futuro da revolução brasileira.
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