Um sax sintetizado rasga o tempo,
coração eufórico lembra que bate,
alivia a dor de existir sem sentido —
a tudo atento, a consciência assiste.
Angústias diluídas em morfina,
mas não é desespero: é tédio,
lassidão de um fracassar à toa,
do existir coletivo, perdido no espaço.
O baixo marca o compasso,
a guitarra segue em acordes dissonantes — como as massas.
Clivagem de uma miragem: me chama a esfinge;
“Antes morrer de vodka do que de tédio”, ela brande.
A festa acabou.
E agora, qual é?
O contrário seria, sustentam os bons,
contentar-se com uma vida banal,
contando os dias até o fim de semana,
dias e dias fazendo algo sem sentido algum.
E tomar remédio pra dormir,
e querer não existir,
e à missa no domingo assistir,
pra ser convencido a seguir...
Mais uma semana. Mais uma.
Cada uma mais banal,
e no peito essa lacuna...
Até o Juízo Final.
Acabei de conhecer essa banda (Morphine) por recomendação do Professor Rodrigo Brandão — desde então, confesso, estou viciado (rs). A droga em si me evoca algumas referências imagéticas: meu Nono, pai de meu pai, ao morrer — demasiadamente drogado para sustentar as dores — subia pelas paredes, como dizem fazer as mulheres no cio, tendo alucinações com demônios que vinham buscá-lo com facas pontiagudas. Ele foi um bad guy, que batia seus filhos que cedo fugiram de casa, depois se tornou mais católico, na medida em que a morte vai se aproximando, e por sua vez, o medo do inferno. Tocava o sino da igreja para anunciar a missa. Tornou-se uma boa pessoa, ao menos para mim aparentava. Mas, pelo visto, não adiantou. Lembro que, quando eu era criança, descascava fumo de corda para que ele fumasse; às vezes escondia, mas nunca me bateu por isso — apenas me puxava as orelhas, e eu achava graça, repetindo para que as puxasse. Talvez seja por isso que eu seja tão orelhudo hoje em dia.
De qualquer forma, a morfina me interessa como essa droga dada a pacientes terminais irresolúveis, para sustentá-los por mais algum tempo (ou ad eternum) diante do fim e de seus demônios. Os opioides, em geral, têm uma história interessante. Isso, creio, diz muito sobre o mundo moderno.
Have a lucky day!!
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