quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Moderna Morfina

Um sax sintetizado rasga o tempo,

coração eufórico lembra que bate,

alivia a dor de existir sem sentido —

a tudo atento, a consciência assiste.


Angústias diluídas em morfina,

mas não é desespero: é tédio,

lassidão de um fracassar à toa,

do existir coletivo, perdido no espaço.


O baixo marca o compasso,

a guitarra segue em acordes dissonantes — como as massas.

Clivagem de uma miragem: me chama a esfinge;

“Antes morrer de vodka do que de tédio”, ela brande.


A festa acabou.

E agora, qual é?


O contrário seria, sustentam os bons,

contentar-se com uma vida banal,

contando os dias até o fim de semana,

dias e dias fazendo algo sem sentido algum.


E tomar remédio pra dormir,

e querer não existir,

e à missa no domingo assistir,

pra ser convencido a seguir...


Mais uma semana. Mais uma.

Cada uma mais banal,

e no peito essa lacuna...

Até o Juízo Final.



Acabei de conhecer essa banda (Morphine) por recomendação do Professor Rodrigo Brandão — desde então, confesso, estou viciado (rs). A droga em si me evoca algumas referências imagéticas: meu Nono, pai de meu pai, ao morrer — demasiadamente drogado para sustentar as dores — subia pelas paredes, como dizem fazer as mulheres no cio, tendo alucinações com demônios que vinham buscá-lo com facas pontiagudas. Ele foi um bad guy, que batia seus filhos que cedo fugiram de casa, depois se tornou mais católico, na medida em que a morte vai se aproximando, e por sua vez, o medo do inferno. Tocava o sino da igreja para anunciar a missa. Tornou-se uma boa pessoa, ao menos para mim aparentava. Mas, pelo visto, não adiantou. Lembro que, quando eu era criança, descascava fumo de corda para que ele fumasse; às vezes escondia, mas nunca me bateu por isso — apenas me puxava as orelhas, e eu achava graça, repetindo para que as puxasse. Talvez seja por isso que eu seja tão orelhudo hoje em dia.

De qualquer forma, a morfina me interessa como essa droga dada a pacientes terminais irresolúveis, para sustentá-los por mais algum tempo (ou ad eternum) diante do fim e de seus demônios. Os opioides, em geral, têm uma história interessante. Isso, creio, diz muito sobre o mundo moderno.

Have a lucky day!!

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