No grande estádio, o céu se fez fronteira,
divino jogo em tarde derradeira.
Com farda alva e olhar onipotente,
Deus apitou com pulso efervescente.
No outro lado, em listras carmesins,
Diabo armava os lances dos serafins.
Torcida em transe, hino e oração,
milagre ou desventura, tudo é invenção.
"Avante, irmãos!" – brada o pastor, vidrado.
"Aqui, não há empate no sagrado!"
"Fiéis, jamais!" – relincha o outro lado,
"Melhor cair de pé que ser domado!"
O povo grita, urrando em desatino,
deixando a vida ao pé do seu destino.
Quem crê na cruz e quem levanta o tridente
se abraçam, bêbados de um deus ausente.
No placar, cifras – não há mais surpresas,
vendem-se almas, vendem-se camisas.
Mas pouco importa a cor da idolatria,
se o mundo é um circo e a fé, bilheteria.
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