quinta-feira, 6 de março de 2025

Míriades

Me apaixonei mil vezes,

ou talvez um milhão;

por sorrisos fugazes,

por olhos que diziam segredos

antes que os lábios os calassem.


Cada estação me trouxe uma imagem,

um perfume, um toque, um sentimento.

E cada adeus, uma ausência, uma viagem,

tecia, em fios de vento,

o mosaico de uma miragem.


Num deserto, mas sem desespero.


Amei nas esquinas da chuva,

nas madrugadas sem promessas;

meus próprios passos a seguir sem rumo,

em vozes que esqueceram meu nome,

uma filosofia inquieta.


Mas há um rosto entre tantos

que nunca se desfez na névoa,

um eco entre as míriades

que insiste em voltar

para uma noite infinita.


Sem certezas, mas diante do luar.


E se o tempo dispersa as memórias,

se as faces se dissolvem no vento,

há sempre um olhar que retorna,

como um astro perdido a vagar,

indelével ao esquecimento.


Um brilho que insiste na noite,

traçando seu arco no peito.


Míriades de um único homem,

num olhar vago e soturno,

sozinho, diante do espelho.


Sem rumo, mas inteiro.


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