segunda-feira, 7 de julho de 2025

Vanguarda

A vida inteira ando — sem rumo ou meta,

qual sombra que perscruta o próprio chão;

um passo à frente, e a alma já inquieta,

no corpo exilam-se o sonho e a direção.


Não é um fim que me move, mas o devir,

o que sucede à chama ao se apagar.

Não busco o porto — sou mar, e o desalento

do ser que, ao ser, insiste em se deixar.


Por onde passo, a terra é provisória.

O que construo: disponho, disperso, inverto.

Meu rastro é rito, errância; a minha glória:

partir-se em mil — e, em cada, ser em si.


Não vivo: me sucedo. Fuga e jogo.

Desdobro-me no tempo, e o tempo rouba-me.

Cavaleiro num tabuleiro de xadrez, sem rumo,

salto de mim, sem casa, causa ou sonho.


E assim caminho, nu e inteiro,

despossuído do que nunca tive:

um nome fixo, um lar, um paradeiro —

somente a busca do que desconheço.


Somente o que extraí do que me deram,

a vã memória à beira do abismo;

apenas o anúncio por ele escrito

no meu coração que insiste: “avança.”

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