A vida inteira ando — sem rumo ou meta,
qual sombra que perscruta o próprio chão;
um passo à frente, e a alma já inquieta,
no corpo exilam-se o sonho e a direção.
Não é um fim que me move, mas o devir,
o que sucede à chama ao se apagar.
Não busco o porto — sou mar, e o desalento
do ser que, ao ser, insiste em se deixar.
Por onde passo, a terra é provisória.
O que construo: disponho, disperso, inverto.
Meu rastro é rito, errância; a minha glória:
partir-se em mil — e, em cada, ser em si.
Não vivo: me sucedo. Fuga e jogo.
Desdobro-me no tempo, e o tempo rouba-me.
Cavaleiro num tabuleiro de xadrez, sem rumo,
salto de mim, sem casa, causa ou sonho.
E assim caminho, nu e inteiro,
despossuído do que nunca tive:
um nome fixo, um lar, um paradeiro —
somente a busca do que desconheço.
Somente o que extraí do que me deram,
a vã memória à beira do abismo;
apenas o anúncio por ele escrito
no meu coração que insiste: “avança.”
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