quinta-feira, 3 de julho de 2025

Poeta Maldito

Nasci com o selo negro entre os sentidos,

um sopro de enxofre em cada madrugada.

Meus versos vêm de antros esquecidos,

A caneta — embriagada e enforcada.


Não busco o céu, nem fé, nem absolvição,

me basta o fel que exalo por instinto.

Sou fruto de uma errante maldição,

cuspido aos risos de um anjo extinto.


Vi cores que jamais terão pigmento,

nas bocas mudas do delírio vão;

cantei com vinho, sangue e fingimento

nas cordas roucas da perdição.


Ó Vogal insana, teu clarão me invade,

Rimbaud — irmão de fuga e de escarcéu —

vi teu inferno feito claridade

e fiz do abismo um verso ao léu.


Sou réu dos deuses, mártir do abandono,

vagueio nu, feito de carne e cicatriz.

Nem morto escrevo — apenas me disponho

ao gozo vil de Outro verso que me diz.


Meu corpo é verbo, e o mundo: blasfemado.

Nele: sou poeta — maldito e consagrado.

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