Nasci com o selo negro entre os sentidos,
um sopro de enxofre em cada madrugada.
Meus versos vêm de antros esquecidos,
A caneta — embriagada e enforcada.
Não busco o céu, nem fé, nem absolvição,
me basta o fel que exalo por instinto.
Sou fruto de uma errante maldição,
cuspido aos risos de um anjo extinto.
Vi cores que jamais terão pigmento,
nas bocas mudas do delírio vão;
cantei com vinho, sangue e fingimento
nas cordas roucas da perdição.
Ó Vogal insana, teu clarão me invade,
Rimbaud — irmão de fuga e de escarcéu —
vi teu inferno feito claridade
e fiz do abismo um verso ao léu.
Sou réu dos deuses, mártir do abandono,
vagueio nu, feito de carne e cicatriz.
Nem morto escrevo — apenas me disponho
ao gozo vil de Outro verso que me diz.
Meu corpo é verbo, e o mundo: blasfemado.
Nele: sou poeta — maldito e consagrado.
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