segunda-feira, 14 de julho de 2025

Tenho medo, Dionysus

Tenho medo de enlouquecer,

dessa dúvida ilimitada,

dos delírios por ela instaurada,

da lucidez num entardecer.


E me ver então no escuro,

sem bastião, cajado ou muro

com que possa me erguer,

tendo de viver nessas instâncias.


Não sei se banco o que minha cabeça pensa,

não sei se já sofro suas consequências —

tenho medo de enlouquecer.


Mas tu, que és o deus da loucura,

me cativaste ao vinho e à mulher nua

e me destes por esposa a lua cheia.

Cobras-me agora o preço deste pacto,


qual faz o diabo com a alma vendida;

e, por vê-la tão bela e redimida,

a põe em sacrifício ao cadafalso.


Tu me impões o caminho da loucura.

Já me vejo a cintilar na escuridão,

sem muro, cajado ou bastião,

mas na altitude dessa vã filosofia.


Tenho de dizer que compreendo,

e que, ao alçar voo em pena aurora,

soube que haveria a hora

em que viria esse momento.


Mas, se a loucura já me tomou conta,

tenho ainda uma única certeza:

de que sinto tudo em plena beleza —

e, se sinto, é real e verdadeira,


ainda que surja de ilusão.

Se tocar meu coração,

para mim, é verdadeiro,

pois agora sou inteiro.


Pois não sei ser de outra forma.

Calmo, me deito neste escuro,

orbitando, Dionysus, a ordem cósmica —

nu, sem nada compreender.


E então,

enlouqueço.

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