Tenho medo de enlouquecer,
dessa dúvida ilimitada,
dos delírios por ela instaurada,
da lucidez num entardecer.
E me ver então no escuro,
sem bastião, cajado ou muro
com que possa me erguer,
tendo de viver nessas instâncias.
Não sei se banco o que minha cabeça pensa,
não sei se já sofro suas consequências —
tenho medo de enlouquecer.
Mas tu, que és o deus da loucura,
me cativaste ao vinho e à mulher nua
e me destes por esposa a lua cheia.
Cobras-me agora o preço deste pacto,
qual faz o diabo com a alma vendida;
e, por vê-la tão bela e redimida,
a põe em sacrifício ao cadafalso.
Tu me impões o caminho da loucura.
Já me vejo a cintilar na escuridão,
sem muro, cajado ou bastião,
mas na altitude dessa vã filosofia.
Tenho de dizer que compreendo,
e que, ao alçar voo em pena aurora,
soube que haveria a hora
em que viria esse momento.
Mas, se a loucura já me tomou conta,
tenho ainda uma única certeza:
de que sinto tudo em plena beleza —
e, se sinto, é real e verdadeira,
ainda que surja de ilusão.
Se tocar meu coração,
para mim, é verdadeiro,
pois agora sou inteiro.
Pois não sei ser de outra forma.
Calmo, me deito neste escuro,
orbitando, Dionysus, a ordem cósmica —
nu, sem nada compreender.
E então,
enlouqueço.
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