Nessa confusão, meus olhos de cão
Observam o fio da vida se fiar,
Como canção que pretende ao violão,
Na madrugada, para a lua quer uivar.
Mas os olhos de cão, diabólico
Atentos ao escuro, à dor e ao erro,
Veem o que o homem nunca ousaria:
O abismo que se esconde no espelho.
Meu mundo, um deserto a caminhar:
Trabalho, cotidiano; sonhos, lazer;
Mapas, candeeiros; pássaros e suas rotas.
Tanta possibilidade, tudo a se fazer.
Mas os olhos de animal, atentos ao nada,
Veem o que o humano não quer ver:
O que se perde no ritmo da estrada,
E o que se encontra, sem saber o porquê.
O acaso só é possibilidade não percebida,
O barroco invisível aos olhos da gente,
Que procura sempre, para tudo, a melhor saída,
E se vê acorrentado, como cão, tão de repente.
Nenhum comentário:
Postar um comentário