Querem de mim a poesia serena, afável,
Palavras que agradem, sem tons de espinhos,
Mas trago em meu peito, voraz e indomável,
A chama que arde, sem planos, sem trilhos.
Querem que eu seja do molde que exigem,
Vestir as máscaras, submisso, calar,
E há quem me queira, porém só se fingem,
De mãos que me guiem, sem voz a clamar.
Por ela, quisera ser menos errante,
Saber-me em seus olhos perfeito, ideal,
Mas ela, com gestos de régua constante,
Se ilude ao querer que eu me mude, afinal.
Sou pobre, não vim das riquezas douradas,
No trilho do sonho, preciso suar,
Inteligente, navego as jornadas,
Mas nunca é justo em mim mesmo pisar.
Serei quem sou, mesmo em rota sofrida,
E embora me molde ao que o mundo requer,
Não troco meu riso, ou minha alma destemida,
Por ter de fingir o que esperam, ser o que quiser.
Não quero obedecer aos caprichos vazios,
Nem seguir as regras de um jogo falaz,
Prefiro nadar contra mares bravios,
Rasgando os limites que o mundo me traz.
A lógica fria, engano imposto,
Tenta me prender numa cela de dor,
Mas quero viver, estudar cada rosto,
Buscar o saber que transcenda o supor.
Quero entender o que move as verdades,
Quero ser livre, sem medo ou senão,
Quero ser tanto, sem as falsidades,
Sem ser de menos pra mim, ou em vão.
Pra você, que desejo, preciso ser vasto,
Mas nunca apagando o que em mim quer brilhar,
Sei que é difícil, o caminho é nefasto,
Mas vale a pena, se é pra me encontrar.
O amor que me pede que eu seja perfeito,
Só vale se sou quem eu devo viver,
E mesmo que o sonho pareça imperfeito,
Prefiro o real a só obedecer.
Tenho que dizer, tenho que dizer,
Pra todos ouvirem, sem falsa ilusão:
Vou seguir meu caminho, sem medo de ser,
Na contramão dessa vã convenção.
Criticar o mundo com fina elegância,
É arte que trago no riso mordaz,
Desprezo as promessas da tal relevância
De uma vida burguesa, sem gosto ou paz.
Ah, que delícia é não ter de buscar
O conforto dourado de um sonho apagado,
Prefiro o suor que me faz acordar,
Que o luxo sem alma, bem mascarado.
Que sentido há em ceias de prata,
Se o vinho tem gosto com pessoas reais?
Prefiro as esquinas, a rua insensata,
Aos salões de vaidades e risos banais.
Não quero o relógio que dita o compasso,
De uma dança sem cor, sem essência ou querer,
Prefiro ironizar, com meu verso e meu passo,
O destino de quem vive só por viver.
Que entendam então: minha vida é um brinde
À contrariedade, ao ser sem censura,
Pois viver de verdades que ninguém compreende
É melhor que morrer numa mesmice obscura.
Quero viver, quero viver de verdade,
Navegar pelos mares do incerto e do vão,
Conhecer cada face, do bem à maldade,
Sentir o que é vida, sem ter direção.
Quero a ciência do erro e acerto,
Saber do que é vil e do que é virtude,
Beber da angústia, do cálice aberto,
E então, só então, ter a tal plenitude.
Que graça há em rotinas marcadas,
Em sonhos pequenos que o medo embalsama?
Prefiro as estradas, as noites caladas,
Perder-me no nada que o tudo proclama.
Caminhar pelas sombras, sem rumo ou controle,
Sentir que sou livre, que sou visceral,
Fugir do banal, do conforto que enrole,
Da vida que traz a ressaca moral.
Quero ser brisa que corta a cidade,
Desafio que escapa à regra do jogo,
Minha alma é chama, é pura vontade,
Que o mundo transforme em poeira ou fogo.
Quero sair, sair por aí,
Com calma elegante, sem rumo exato,
Buscar no silêncio o que vive em si,
Sem mapas que prendam ou planos de fato.
Na procura serena, a vida me ensina,
Que a busca é um jogo de sutil ironia,
Pois rir de si mesmo é a arte mais fina,
Na dança que trava com a filosofia.
“Conhece-te a ti mesmo” — que bela sentença,
Um peso, talvez, de sabor refinado,
O fardo que carrego com justa paciência,
Escrevendo com a vida um verso marcado.
O si-mesmo exige, com plena gravidade,
Um trato sereno, um pacto sutil:
A poesia que nasce da própria verdade,
E se molda, tranquila, no peito febril.
Quero sair, sair por aí,
Com a serenidade de quem bem conhece
Que o mundo, por vezes, não há de servir
Ao gosto irônico de quem se merece.
Anseio coisas geniais, é verdade,
E se as portas fecharem com ar imponente,
Talvez o inferno, com certa vaidade,
Receba meu riso, tão indiferente.
Dispenso apenas morrer de tédio,
Prefiro o absurdo, a certeza do incerto,
Meu destino é coisa minha, e penso
Que viver vale mais, se o risco é desperto.
Vou morrer, eu sei, sem cerimônia,
Sem promessas de um fim glorioso,
O meu destino é duvidoso,
Um enigma que ri da própria insônia.
Meu caminho nesse mundo, eu sei,
Vai ter um brilho incerto e louco,
Dos que nunca perdem pouco,
E jamais se contentam com pouco, eu sei.
Vivo assim, entre o riso e o risco,
Serenamente, com fina ironia,
Pois perder e ganhar, é a sina,
É o preço justo de um sonho bonito.
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