No abismo em que me vejo,
onde o ar pesa, onde o som se esvai,
não há mais estrela, só escuridão a me rodear.
A liberdade, essa fera solta,
não me consola — não me afasta.
Ela me pesa, me arrasta pela garganta,
uma fome sem fim, que não sabe nome.
Os deuses… se existirem,
murmuram em algum canto distante,
tão distantes quanto o eco de minhas próprias dúvidas,
como vultos fugidios em um sonho que não se realiza.
Será que eles também sentem o frio
do vazio, onde tudo se dissolve e nada se constrói?
E este fogo que arde em mim,
será meu ou já queimava antes de eu existir?
Ah, como ele arde, mas não purifica,
não liberta, apenas consome,
como se, ao tocar-me,
me ensinasse a ver tudo por um instante,
só para depois apagar a visão
com a cegueira da dúvida.
Eu, que sou carne, que sou medo,
caminho entre os restos de um céu que caiu.
Os deuses, se fossem humanos,
teriam seus castigos, mas
aqui, no fundo, nada há
senão o eco do meu próprio pensamento,
o grito sem som, o peso sem forma.
Liberdade, tu és a cruel ironia
de estar vivo e não saber onde me encaixo.
Tu me ofereces a chave,
mas sou prisioneiro da porta
que não sei abrir, e nem quero.
Que dor habita esse espaço sem nome,
onde os deuses, se existirem, se perdem,
e nós, humanos, com a mesma solidão,
nos buscamos em uma eternidade que não acontece.
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