Pelas ruas da mente, um desfile encantado,
cidades de outrora, agora miragens,
onde gente se perde num sonho enfeitado,
de glórias passadas, em fina maquiagem.
Que beleza, me digam, viver o que foi,
fantasiar palácios de ouro e desejo,
no teatro do tempo, é fácil ser herói,
quando tudo é lembrança e nada é ensejo.
Ah, as grandes memórias, tão ricas, tão belas,
erigem arranha-céus de papel e ilusão,
mas quem tenta tocá-las, tropeça nas velas
de um navio que afunda sem tripulação.
E os rostos que vejo são todos turistas,
em becos sem vida, museus do talvez,
viajantes do nada, com mapas e listas,
de histórias que ecoam sem chão ou de vez.
Que ironia elegante, viver no passado,
em ruas sem lastro, castelos sem rei,
um banquete de névoa, tão bem preparado,
mas o gosto? É poeira, turva insensatez.
E os poetas que riem, com taças em brinde,
sabem bem dos milagres que a mente fabrica,
são guias sarcásticos, em versos que linde
esses sonhos antigos, já fora de época.
Pois na festa do tempo, há quem dance em delírio,
abraçando memórias num baile sem fim,
e se a vida é presente, que seja um martírio,
pois viver de passado é um truque chinfrim.
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