Ó espírito astuto, sombra e luz retinta,
Ventre da dúvida e da negação,
Que a razão ensinas, sob forma distinta,
Na dança eterna da contradição.
Não temes a fé que tudo subjuga,
Ao dogma falaz de um manto sagrado;
Pois sabe o poder que aos cegos perjura,
Da cruz erguida num ouro dourado.
Ó sutil tentador das almas mortais,
Mefisto, rival das certezas divinas,
Desnudas segredos nos templos reais,
Onde o ouro, profano, as almas destina.
Quão bela a igreja, erguida ao céu limpo,
Porém podre em seu pilar corrompido,
Vende indulgências, fraudes do olimpo,
E aos pobres promete o sonho perdido.
Com ironia vestes de manto nobre,
Aquele que brada a fé sem ciência,
Mas sobre as preces do desvalido pobre,
Faz-se o altar da cruel negligência.
E tu, ó Mefisto, que ao homem instigas,
A ser consciente, no mundo cruel,
Ensinas que há forças que são inimigas,
E que a luz só fulge por trás de um véu.
Que tragicomédia é a fé mercenária!
Que circo, o rito de puro interesse,
A voz dos poderes que, em cena precária,
Pregam amor, mas com ódio em prece!
Tu ris, velho demônio, e teu riso sublima
Dançando entre hipocrisias e medo,
Pois sabes: a força que a mente ilumina
Surge do embate em que a sombra é enredo.
Ó Mefistófeles, eterno revés,
Antagonista da hegeliana lição,
Se és a negação, és também quem refaz,
A vida em sua dialética visão.
Entre o céu e a terra, na luta imposta,
A verdade só nasce no caos a contento;
E a fé cega, da igreja em sua aposta,
Desfaz-se inteira ao toque do teu argumento.
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