segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Ode a Mefistófeles

Ó espírito astuto, sombra e luz retinta,

Ventre da dúvida e da negação,

Que a razão ensinas, sob forma distinta,

Na dança eterna da contradição.

Não temes a fé que tudo subjuga,

Ao dogma falaz de um manto sagrado;

Pois sabe o poder que aos cegos perjura,

Da cruz erguida num ouro dourado.


Ó sutil tentador das almas mortais,

Mefisto, rival das certezas divinas,

Desnudas segredos nos templos reais,

Onde o ouro, profano, as almas destina.

Quão bela a igreja, erguida ao céu limpo,

Porém podre em seu pilar corrompido,

Vende indulgências, fraudes do olimpo,

E aos pobres promete o sonho perdido.


Com ironia vestes de manto nobre,

Aquele que brada a fé sem ciência,

Mas sobre as preces do desvalido pobre,

Faz-se o altar da cruel negligência.

E tu, ó Mefisto, que ao homem instigas,

A ser consciente, no mundo cruel,

Ensinas que há forças que são inimigas,

E que a luz só fulge por trás de um véu.


Que tragicomédia é a fé mercenária!

Que circo, o rito de puro interesse,

A voz dos poderes que, em cena precária,

Pregam amor, mas com ódio em prece!

Tu ris, velho demônio, e teu riso sublima

Dançando entre hipocrisias e medo,

Pois sabes: a força que a mente ilumina

Surge do embate em que a sombra é enredo.


Ó Mefistófeles, eterno revés,

Antagonista da hegeliana lição,

Se és a negação, és também quem refaz,

A vida em sua dialética visão.

Entre o céu e a terra, na luta imposta,

A verdade só nasce no caos a contento;

E a fé cega, da igreja em sua aposta,

Desfaz-se inteira ao toque do teu argumento.

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