Na abóbada que o artista pintou,
um dedo se estende, tocando o nada.
Adão descansa, feito do barro,
e Deus se ergue na luz inventada.
Mas diga: quem criou quem, afinal?
O traço não mente, é claro no quadro:
um Deus com rosto de homem banal,
cheio de medo e desejo moldado.
É homem o arquiteto do sagrado,
pois nos céus projetou seu espelho.
Os deuses nascem da mente que aflora,
e neles, nosso orgulho e receio.
Onipotente, mas frágil, caprichoso,
feito da mesma poeira em que pisamos.
Se os deuses são grandes, é pelas metades
que em nós mesmos vamos inventando.
Michelangelo, em traço certeiro,
revela o mito que a igreja contou:
Deus não toca Adão do alto do céu,
é Adão quem o erige como criador.
Nenhum comentário:
Postar um comentário