Caminho com gentileza sobre a terra.
A vida é sorte,
e adequação.
Caminho com gentileza sobre a terra:
nem triste,
nem feliz,
mas com elegância.
Caminho com gentileza sobre a terra,
pairando como espectro vermelho,
desejante do bem comum,
desejante de paz, de solidariedade.
E por isso contra o capital,
pois não seria gentil o contrário,
nem mesmo ético.
Caminho com gentileza sobre a terra.
A vida é sorte
e adequação.
Escrevo artigos jurídicos,
relatórios regulatórios de direito bancário.
Pinto paredes e tetos,
instalo fios elétricos, encanamentos.
Planto e colho fumo,
toco o gado,
sirvo bebidas.
Exerci as profissões de meu pai,
exerci os gestos de minha mãe,
de quem muito me orgulho.
Construí uma casa desde o fundamento.
Sinto que posso fazer qualquer coisa.
Tenho apreço em aprender,
mas também me sinto perdido no que fazer:
sentimento comum da minha geração.
Usino o metal,
entorto o aço,
entorno a lança,
escrevo poesia,
e muito mais,
e muito mais...
Penso que a gentileza é das coisas mais bonitas
entre todas as coisas bonitas.
A vida é acaso
e adequação.
Não condeno ninguém.
Não tenho luxo ao trabalho.
Não sou sommelier de nada.
Acostumado à marmita fria,
a ver passar os dias
sem me dar o luxo de sonhar.
E se um dia acaso, sem sorte,
não souber me adequar,
será tão somente
por caminhar com gentileza sobre a terra.
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