terça-feira, 30 de setembro de 2025

Vivo danado pra diabo ser

Sou poeta, mas queria

ser jagunço, destemido;

correr o espírito, atrevido,

qual cavalo em correria.


Nesse sertão tão profundo,

que na minh’alma se cria,

galopar em audaz ousadia,

não pedindo paz ao mundo.


Como viver sem paciência,

um diabo em sua lida,

com a poesia por vida,

cheio de ardor e consciência.


Tal é meu rosto candente:

de anjo guarda a figura,

mas nos olhos se mistura

o demônio incandescente.


Na sombra trago o cutelo,

sede bruta a me ferir;

rezo ao fogo, não ao céu,

pois as chamas sei sentir.


No abismo cravo a palavra,

como faca em carne aberta;

toda rima é sombra brava,

toda estrofe é porta incerta.


Sou jagunço de alma escura,

cavaleiro do pecado;

minha sina é tão dura,

meu destino envenenado.


Se no sangue escrevo a vida,

no silêncio faço o brado;

sou blasfêmia retorcida,

sou poeta desgraçado.


Tal é meu rosto, o semblante,

que a anjo se assemelha,

pois, nas asas da liberdade,

a vertigem é que rodeia.


E se o céu me não consente,

que o inferno me receba;

sou poeta e sou serpente,

na vertigem que me enleiva.


Entre o fogo e a quimera,

sem jamais poder deter,

sou jagunço, sou poeta:

mas vivo danado pra diabo ser.

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