Para Vitória
Um encantamento, em dor, me toma,
tão fundo que transpassa a própria alma;
não é assim que a vida nos desarma,
com chama oculta em cada leve soma?
E o peso cresce, a dor já se consuma,
mas traz no fardo a lúcida e alta calma;
o olhar se afina e dá a tudo a palma,
da sombra faz clarão que se entorna.
Por sentir a vida em súbita importância,
em cada gesto o abismo se revela;
na dor se oculta a força da esperança.
E, se é martírio a chama que se zela,
também nos guia, em trágica abundância,
ao dom cruel que, amando, nos flagela.
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