sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Máquinas do desejo

Um caminhão azul,

Volkswagen de dois eixos,

carrega a terra de um outro lugar,

move montanhas com ou sem fé.


Gosto desse azul não-céu, pouco ontológico:

assim na terra, como em nós,

levando a terra que nos fundou

a mover montanhas, a sós.


Travessias assíduas assistimos —

mira e vê:

o que nos faz pulsar senão o ímpeto

inconstante e de viés,

o que desejas senão o livre arbítrio,

o que odeias senão vagar ao léu?


Sobre o desejo, recorremos à etimologia,

e vemos o abandono dos astros.

Mas a palavra é moeda sem lastro:

eis o legado de Saussure.


Estamos entregues a nós mesmos,

máquina como o caminhão azul:

a dirigir-se, a mover montanhas,

fantásticas ou não,

com ou sem fé,

mas cativo dos grilhões do próprio ser.


Viver é atravessar-se em mil termos,

enterrar-se em mil tomos,

acolher mil abandonos

e negar-se inteiro.


Reviver é sempre ser coisa outra,

rolar o ser sob o ente, cotidianamente...

e, no esforço sem fim, descobrir

entrever no instante a chance de ser contente.


E se a máquina insiste em seus destinos,

no azul de si, inventa seus caminhos.

Montanha erguida, pedra em desalinho,

ser é vagar — e isto basta para ser divino.

2 comentários:

  1. There's no way Brazil is producing philosophers that are that obsessed with existencialism and self and boulder and imagine Sisyphus happy. The capital must love existentialists that imagine themselves happy while working hours upon hours and their overlords are funding a system where there is no self, just the boulder, and the illusion that materializes into imagination and then we must imagine this greek god happy in his punishment for all our woes and sorrows.

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