Há pessoas que nascem sob determinada lua, ao cair de um cometa ou asteroide, e que, justamente por isso, são diferentes. Não sei se é precisamente por conta disso, mas pretendo dizer, por um fator desconhecido, que as torna sentimentais, sagazes, geniais e fora da curva. Pode não ser a lua, o signo, o temperamento ou o que valha. No entanto, seria uma determinação social, ontológica ou altamente metafísica? Esse julgamento parece fora de questão. A esse respeito, o materialismo aleatório de Althusser me parece apontar horizontes significativamente sensatos para se pensar.
O materialismo aleatório de Althusser é uma abordagem que reinterpreta o materialismo histórico, destacando a complexidade das relações sociais, que reconhece a importância da economia na estruturação da sociedade, mas argumenta que outras instâncias sociais também exercem influência, resultando em interações imprevisíveis e contingentes. Essa abordagem enfatiza a aleatoriedade dos eventos históricos e rejeita uma visão determinista e mecânica da história.
Em um café qualquer, dois estranhos se cruzam. Seus olhares se encontram por um instante fugaz, mas é o suficiente para desencadear uma série de eventos que mudarão o rumo de suas vidas. Em um mundo regido pelo caos, onde cada escolha desencadeia uma miríade de possibilidades, o imprevisível é o fio condutor que entrelaça as existências. Um deles poderia vir a ser, quem sabe, um novo Napoleão.
Logo, sem fantasias, sobre o lugar de onde provém a materialidade concreta dos gênios, suas biografias podem fornecer diretrizes comuns, que idicam o caminho que o fez se distanciar da "massa", de onde provém suas virtudes. Estamos diante de eventos que agem de forma determinante, podendo ser concebidos como verdadeiros motores da personalidade. Isso remete à ideia do Absoluto, como conjecturado por Hegel, e historicamente desidealizado por Marx. Recordo inevitavelmente da sentença de Balzac em Illusions perdues que li recentemente, de que "A lenta realização das obras de um gênio exige uma fortuna considerável já existente, ou o sublime cinismo de uma vida pobre." De fato, isso determina tanto sua realização como encaminha o sujeito ao suicídio. No entanto, sempre restará o aleatório a estabelecer seu império soberano. A consciência para pensar a respeito também é (e já foi) determinada nesses intervalos materiais que historicamente se desmancham no ar.
O sucesso de um jogador de futebol depende mais de seu contexto histórico do que de seu talento com a bola. O que faria um Messi na Idade Média? Nesse contexto, inteligência é capacidade de adaptação. Assim, a história gira como numa roleta-russa de um revólver 38, de forma que levar um tiro poderá ser a maior dádiva de sua época, a depender de circunstâncias - dadas aleatóriamente - como cartas cortadas pelo destino e distribuidas pelo acaso. Vale o clichê de Auguste Comte, de que a vida dos vivos já foi determinada pela vida dos mortos, claro. E que, talvez por isso mesmo, tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Mas ainda mais valioso é pensar, como Vinicius de Moraes, que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Assim, vale encontrar-se e, para tanto, se perder.
Roda mundo, roda-gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.
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