segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Escrutínio do Papai Noel

Por seguir o calendário juliano, eu comemoraria o Natal ontem, mas, por motivos de agenda, como praia, e por não celebrar o Natal, não consegui. De qualquer forma, essas divergências entre os calendários são muito problemáticas. O Ano Novo está chegando, e ninguém sabe dizer que dia será. Assim, um revolucionário francês não sobreviveria à rotina dos calendários gregorianos, não teria agendas a comprar, e um marxista pode não saber que o 18 Brumário de Luís Bonaparte equivale a 9 de novembro do calendário gregoriano. Já o liberal confunde, pela incultura - tão típica deles - Napoleão com Luís. Nesse contexto, o Papai Noel (que não existe, claro) se existisse ficaria confuso ao ponto de querer não existir. Brincadeiras à parte, a realidade é bem maior que nossos sonhos, e é até divertido ver como nosso imaginário é ficcionalmente construído para sermos exatamente o que somos.

Mas a história se impõe sobre a ficção. Assim, calendários, contos, tradições e costumes, ou seja, nossa forma de ser, têm seus motivos costumeiramente curiosos. No entanto, a graça não está em observar ou justificar, por exemplo, as razões pelas quais as crianças gostam do Papai Noel, e sim as razões pelas quais os adultos o inventaram. Há um texto de Claude Lévi-Strauss (O Suplício do Papai Noel) que explora esse tema, a partir de uma notícia relativamente trágica (pois cômica) e sugere que esses cuidados que temos com o Papai Noel são cultivados pela persistência nos sujeitos de uma vontade de acreditar, por pouco que seja, numa generosidade irrestrita, numa gentileza desinteressada, num breve instante em que se suspende qualquer receio, qualquer inveja e qualquer amargura. Na crença de um ser, acima de todos (e sob um trenó), que confere sentido às coisas e os presenteia quando chega a hora.

No caso em questão, Lévi-Strauss explorou um incidente peculiar envolvendo o Papai Noel em 1951, na França, conforme relatado pelo jornal France-Soir. Nessa ocasião, o Papai Noel foi submetido a um enforcamento seguido de queima no átrio da Catedral de Dijon, diante de crianças de orfanatos, com a aprovação da Igreja (pra variar), que o rotulou como usurpador e herege. Esse episódio gerou controvérsia, dividindo a opinião pública entre apoiadores e críticos do Papai Noel. O que Lévi-Strauss destacou como paradoxal foi a postura inesperada dos anticlericais, que defendiam o Papai Noel, enquanto a Igreja adotava uma posição mais racional e crítica, opondo-se à representação fictícia desse bom velhinho, que buscava ocupar o lugar do "verdadeiro bom velhinho". Esse cenário revelou uma complexidade cultural e simbólica, incitando uma reflexão mais profunda sobre as origens e significados dessa tradição, que levou a publicação da obra.

No contexto natalino, historicamente, elementos antigos são mesclados e renovados, introduzindo-se novos elementos e criando fórmulas inéditas para preservar, transformar ou reviver práticas antigas. A origem histórica do Papai Noel está diretamente relacionada com São Nicolau de Mira. No entanto, facilmente se verifica que os aspectos não-cristãos do Natal assemelham-se aos Saturnais, e que a escolha da data de 25 de dezembro pela Igreja para o Natal sugere a intenção de substituir festas pagãs que originalmente ocorriam, mantendo características semelhantes ao longo da Antiguidade até a Idade Média. Certamente, não compartilhamos totalmente a ilusão; no entanto, a justificativa para nossos esforços é que, ao cultivá-la nos outros, encontramos uma oportunidade (na fantasia) de aquecer a chama viva nessas jovens mentes. A crença que ensinamos a nossos filhos, de que os brinquedos vêm de um lugar especial chamado "Além", serve como uma desculpa para o movimento secreto que nos leva a oferecê-los a esse "Além", sob o disfarce de dá-los às crianças. Dessa maneira, ao menos para Lévi-Strauss, os presentes de Natal continuam a ser um verdadeiro sacrifício à vida, que consiste, em primeiro lugar, dar outro sentido a ela e, assim, escapar da morte.

Então, quem sabe, um feliz natal. 

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