Golpearon a mi puerta el 6 de agosto:
ahí no había nadie
y nadie entró, se sentó en una silla
y transcurrió conmigo, nadie.
Nunca me olvidaré de aquella ausencia
que entraba como Pedro por su casa
y me satisfacía con no ser:
con un vacío abierto a todo.
Nadie me interrogó sin decir nada
y contesté sin ver y sin hablar.
Qué entrevista espaciosa y especial!"
(Pablo Neruda - Sucede)
Para uma Ontoteologia do Deus-Abismo
Introdução
A reflexão filosófica sobre o divino, desde a antiguidade, apresenta-se como um campo marcado por tensões entre ser e nada, plenitude e ausência, determinação e indeterminação. A metafísica ocidental, notadamente com Espinosa e Hegel, busca compreender Deus como fundamento absoluto, seja enquanto substância infinita, seja enquanto processo dialético de devir. Por outro lado, tradições orientais, como o Taoismo, apontam para um divino que se manifesta no vazio, no indizível, no não-ser criador. A ontologia existencial de Sartre acrescenta uma perspectiva humana do nada como constitutivo da existência, tensionando o conceito de ser pleno. Este ensaio busca articular essas quatro linhas de pensamento para propor a figura do Deus Abissal, um Deus-abismo que integra infinitude e vazio, ser e não-ser, como núcleo ontológico do real.
1. Deus em Espinosa: Substância Infinita e Necessária
Baruch de Espinosa, em sua Ética demonstrada à maneira dos geômetras, estabelece que Deus é "causa sui", isto é, a causa de si mesmo, existindo necessariamente e sendo infinito em seus atributos (Espinosa, 1677/2015, p. 41). Nada existe fora de Deus: "Tudo o que é, é em Deus, e nada pode ser nem ser concebido sem Deus" (Espinosa, 1677/2015, p. 47). O divino é, portanto, identidade entre causa e efeito, criador e criação, imanência absoluta.
A infinitude de Deus, no entanto, é incompreensível ao intelecto humano finito. Embora possamos deduzir sua existência e natureza a partir de princípios racionais, a totalidade de seus atributos excede toda representação. Aqui surge uma dimensão abissal: o infinito, ao ultrapassar qualquer determinação finita, é vivenciado como mistério, um "abismo de ser" inalcançável à compreensão plena.
2. O Tao e o Divino Vazio
No Tao Te Ching, Laozi afirma: "O Tao que pode ser dito não é o Tao eterno. O nome que pode ser nomeado não é o nome eterno" (Laozi, séc. VI a.C./2011, p. 1). O Tao é o princípio originário, anterior ao ser e ao não-ser: "Do Tao nasceram o Um, o Um gerou o Dois, o Dois produziu o Três, e o Três produziu todas as coisas" (Laozi, p. 42).
Esse fundamento é caracterizado como vazio: "O Tao é como um vaso vazio: usamo-lo e ele nunca se enche" (Laozi, p. 11). O divino, aqui, não é uma substância positiva, mas ausência fértil, não-ser que engendra a multiplicidade dos entes. Diferentemente de Espinosa, cujo Deus é plenitude racional e necessária, o Tao é o inominável, o indeterminado, que só se revela quando a linguagem e o pensamento conceitual são suspensos. O vazio não é carência, mas potência criadora, abismo do qual brota o ser.
3. Hegel: Ser, Nada e Devir
Na Ciência da Lógica, Hegel inicia sua exposição com as categorias mais simples: ser e nada. O ser puro é indeterminado, sem qualidade ou conteúdo, e por isso indistinto do nada puro. Ambos se encontram em uma indiferença absoluta que, no entanto, não permanece estática: "O ser puro e o nada são o mesmo. Sua verdade é, portanto, este movimento do imediato desaparecer de um no outro: o devir" (Hegel, 1812/2016, p. 83).
O fundamento do real, para Hegel, não é uma substância estática, mas um processo dialético no qual ser e nada se interpenetram incessantemente. Essa negatividade interna ao ser faz dele algo dinâmico, em constante autossuperação. A ideia do divino, nessa perspectiva, pode ser compreendida como um abismo processual, um movimento no qual a infinitude se dá como negação e reintegração do nada, como um eterno devir.
4. Sartre: O Ser e o Nada na Existência Humana
Jean-Paul Sartre, em L'Être et le Néant (1943), afirma que a consciência humana é "nada". O ser-para-si, diferentemente do ser-em-si (as coisas), é uma fenda no ser, uma negatividade: "A consciência é aquilo que não é o que é e é o que não é" (Sartre, 1943/2015, p. 108).
Essa negatividade é constitutiva da liberdade humana: somos seres que projetam possibilidades, que não estão fixados numa essência. O nada, longe de ser simples ausência, é o espaço ontológico no qual a existência se dá como abertura. O divino, se pensado a partir da experiência humana, não pode ser apenas ser absoluto, mas deve incluir o nada que nos atravessa, o abismo de indeterminação que é o núcleo da existência.
5. O Abissal: Deus como Abismo Totalizante
Unindo as concepções anteriores, podemos nomear o divino como Abissal, o Deus-abismo. Este Deus não é ente supremo, nem sujeito pessoal, nem mera substância positiva. É imanência infinita (Espinosa) que se expressa como vazio criador (Taoismo), movimento dialético entre ser e nada (Hegel), e experiência existencial de negatividade (Sartre).
O universo totalizante é, nesse sentido, um abismo ontológico: a infinitude não se apresenta como soma de predicados, mas como vertigem, aquilo que excede toda determinação, que é ao mesmo tempo tudo e nada. O infinito só pode ser infinito porque contém o nada; o nada só pode ser nada porque se abre ao ser. O Deus Abissal é o nome desse paradoxo fundamental, desse horizonte onde o real se perde para se encontrar.
6. Conclusão
A partir da aproximação entre Espinosa, Taoismo, Hegel e Sartre, propõe-se a figura do Deus Abissal, um Deus que é ao mesmo tempo plenitude e vazio, ser e nada, movimento e mistério. Esta ontoteologia do abismo recusa tanto a transcendência absoluta quanto a positividade plena do divino, concebendo-o como fundamento vertiginoso do real. O universo totalizante não é apenas presença, mas inversão infinita em direção ao nada. Pensar o divino é, portanto, mergulhar nesse abismo, onde ser e não-ser se confundem, e onde o infinito só se revela como silêncio e vertigem.
Referências
ESPINOSA, B. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2015 [1677].
HEGEL, G. W. F. Ciência da Lógica. Petrópolis: Vozes, 2016 [1812].
LAOZI. Tao Te Ching. Tradução de D. C. Lau. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
SARTRE, J.-P. O Ser e o Nada. Petrópolis: Vozes, 2015 [1943].
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