sexta-feira, 12 de julho de 2024

No vinho a verdade

Há aquela famosa recomendação atribuída a Balzac: escreva com vinho, revise com café. Há ainda a também famosa expressão latina "In vino veritas" muito sugestiva, cuja forma completa adverte "in vino veritas, in aqua sanitas*". Acredita-se que o provérbio tenha sido atribuído a Caio Plínio Segundo, e sugere que pessoas sob efeito do vinho revelam verdades, como narrado pelo historiador Tácito, sobre uma cultura da Germânia, cujo povo se achava mais sábio bêbado.

As lendas em torno dessa expressão são inúmeras, e é difícil dizer quais delas poderiam conter algo de verdadeiro. Talvez todas, inclusive, pois a verdade está no vinho. Mas a expressão é antiga, e acredita-se que a origem seja grega, e remete ao poeta Alceu de Mitilene, mas também é mencionada no "Banquete", de Platão, que ensejou o ensaio filosófico escrito em 1844 por Søren Kierkegaard, cujo título carrega a expressão latina, e aborda a narrativa sobre os cinco discursos do amor presentes no texto platônico.

No Banquete de Platão o vinho revela a verdade, e é por isso que Alcibíades, ao beber, consegue expressar seu amor por Sócrates. Ao falar sobre seu amor por Sócrates, ele acaba elogiando não apenas um homem, mas a filosofia que, assim como o vinho, provoca aquela doença, aquela loucura especial que é privilégio dos livres. Por outro lado, é natural que Platão condene a embriaguez no Livro III da República, lá ela é declarada inconveniente, sendo até mesmo chamada, sem meio termo, de doença e desgraça. O amante do vinho (φιλοῖνος) aceita qualquer tipo de vinho por qualquer pretexto, embriagando-se continuamente e vivendo em um estado de excitação dos sentidos e embotamento da inteligência, similar ao estado das crianças. 

Nos poemas Alceu de Mitilene, possível gênese da expressão, como observado, há versos como "O vinho, meu amigo, e a verdade" (366 L-P) e "Porque o vinho é o espelho dos homens." (333 L-P). Nesse sentido, podemos supor que a verdade não costuma ser bela. Mas é inegavelmente curioso como essa ideia se materializa em diversas culturas. No Talmude (coletânea judaica de livros sagrados), por exemplo, encontra-se a máxima: נכנס יין יצא סוד, cuja tradução literal remonta ao acádio (também língua semítica) que significa "o vinho vem, o segredo sai". Também há a máxima em chinês: 酒後吐真言, traduzida literalmente como "depois do vinho, temos a palavra verdadeira".

Não pode ser atoa a razão do próprio Cristo transformar água em vinho, e este ser um de seus sinais de sua verdadeira distinção sagrada. Tampouco a opção de fazer do vinho seu sangue e do pão sua carne no milagre da transubstanciação. Mas os provérbios bíblicos (23: 20,21, tradução livre da vulgata) alertam: "não te ajuntes com os bebedores de vinho, com aqueles que devoram carnes, pois o ébrio e o glutão se empobrecem e a sonolência veste-se com andrajos." E ainda (31-35): "Não consideres o vinho: como ele é vermelho, como brilha na taça, como corre suavemente!. Mas, no fim, morde como uma serpente e pica como um basilisco! Os teus olhos verão coisas estranhas, teu coração pronunciará coisas incoerentes. Serás como um homem adormecido no fundo do mar, ou deitado no cimo dum mastro: “Feriram-me – dirás tu –; e não sinto dor!”. “Bateram-me... e não sinto nada. Quando despertei eu? Quero mais ainda!” 

O filósofo dirá, no entanto, que do cristianismo anseia apenas o vinho e o pecado. Mas se a virtude está no meio, como sustentava Aristóteles (mesótês), procurando o meio entre os extremos, na exata medida e encontro entre Dionísio e Apolo, a resposta mais assertiva que podemos intuir é que deve-se estar sempre meio* bêbado. E aí podemos falar ainda em eternidade, como afirmou Galeano em "A festa'' no Livro dos Abraços: "Somos todos mortais até o primeiro beijo e a segunda taça de vinho". Mas isso me remete de pronto ao poema de Baudelaire, "Enivrez-vous", que, na tradução de Aurélio Buarque de Holanda (1950) diz o que segue:

"É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos abate e vos faz pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar.

Mas – de quê ? De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor. Contanto que vos embriagueis.

E, se algumas vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a verde relva de um fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder:

- É a hora de embriagar-se! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor."

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