Vou fazer o papel de uma jovem
que se maquia para sair e trabalhar
com coisas tolas, das quais não gosta,
mas precisa fazer para se sustentar.
Poderia ser costurar, pintar, cozinhar,
limpar, plantar e colher,
de preferência algo
que permitisse estudar, aprender.
Dançar, quem sabe, uma bailarina,
e fazer de Khachaturian e seu Spartacus
minha glória, minha sina.
Mas vou fazer o papel da jovem
e preciso me deslocar, subir a rua.
O trabalho é próximo, quinze minutos,
caminharei como se fosse livre,
como pássaro a voar para a arapuca.
Uso apenas cinco falas; outra, quem sabe, ouse.
Não cabe muito improviso em vida incerta,
além, claro, dos naturais de sobrevivência.
Quem passa fome teme a sorte,
não investe no acaso, mas com pouco se contenta.
Sou essa jovem, mas que já sonhou em ser atriz
e se maquiar para ser, a cada dia, algo novo,
como, quem sabe, uma bêbada
que vende os filhos em Paris,
nos tempos da Comuna.
Com uma que seja, réplica.
Como a Revolução,
cujos seios são visíveis na pintura
a guiar o povo.
E precisa subir em uma torre, como no palco, para destruí-la,
sonhando ser livre, carregando uma bandeira,
Não mais tricolor, não mais burguesa,
Mas para todos, agora vermelha.
Tecida por seres de alma sublime.
gente que só o álcool liberta.
Não podendo libertar-me,
voltar-me-ei para o público.
Analisei as minhas seis réplicas como as seis balas no tambor do revólver,
que se lixa a numeração para encobrir a origem ilícita,
todas as origens possíveis, realidades ilícitas à vista
de quem nada assiste além do espelho.
Pronunciarei cada uma com a melhor apresentação,
contra a ordem e contra todos os que me olham.
Se eu não refletisse, maquiar-me-ia simplesmente
como uma menininha
burra e decadente. Mas vou entrar em cena
como uma bela mulher que, sem sonhos mais,
guarda as marcas da ordem e do progresso
na pálida pele outrora macia e depois cheia de rugas,
outrora atraente e agora repelida,
para que ao vê-la cada um se interrogue: quem
fez isto?
Todos vocês!
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