segunda-feira, 29 de julho de 2024

Solilóquio para uma jovem atriz enquanto se maquia

Vou fazer o papel de uma jovem

que se maquia para sair e trabalhar

com coisas tolas, das quais não gosta,

mas precisa fazer para se sustentar.


Poderia ser costurar, pintar, cozinhar,

limpar, plantar e colher,

de preferência algo

que permitisse estudar, aprender.

Dançar, quem sabe, uma bailarina,

e fazer de Khachaturian e seu Spartacus

minha glória, minha sina.


Mas vou fazer o papel da jovem

e preciso me deslocar, subir a rua.

O trabalho é próximo, quinze minutos,

caminharei como se fosse livre,

como pássaro a voar para a arapuca.

Uso apenas cinco falas; outra, quem sabe, ouse.

Não cabe muito improviso em vida incerta,

além, claro, dos naturais de sobrevivência.

Quem passa fome teme a sorte,

não investe no acaso, mas com pouco se contenta.


Sou essa jovem, mas que já sonhou em ser atriz

e se maquiar para ser, a cada dia, algo novo,

como, quem sabe, uma bêbada

que vende os filhos em Paris,

nos tempos da Comuna.

Com uma que seja, réplica.

Como a Revolução, 

cujos seios são visíveis na pintura

 a guiar o povo.


E precisa subir em uma torre, como no palco, para destruí-la,

sonhando ser livre, carregando uma bandeira,

Não mais tricolor, não mais burguesa,

Mas para todos, agora vermelha.

Tecida por seres de alma sublime.

gente que só o álcool liberta.

Não podendo libertar-me,

voltar-me-ei para o público.


Analisei as minhas seis réplicas como as seis balas no tambor do revólver,

que se lixa a numeração para encobrir a origem ilícita,

todas as origens possíveis, realidades ilícitas à vista 

de quem nada assiste além do espelho.

Pronunciarei cada uma com a melhor apresentação,

contra a ordem e contra todos os que me olham.


Se eu não refletisse, maquiar-me-ia simplesmente

como uma menininha

burra e decadente. Mas vou entrar em cena

como uma bela mulher que, sem sonhos mais,

guarda as marcas da ordem e do progresso

na pálida pele outrora macia e depois cheia de rugas,

outrora atraente e agora repelida,

para que ao vê-la cada um se interrogue: quem

fez isto?

Todos vocês! 

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