Cada mulher é um ser em si, universo à parte,
Que não compreendo e, por isso mesmo, me interessa.
Cada mulher é como um navio que parte
Para algum lugar, sem roteiro, Curitiba-Itália.
Anas de Amsterdams e Francesas-Joanas,
Fulanas, Marias, Ciclanas e Cristinas,
Cabeças-sentenças que, a partir de memórias,
Moldam seus futuros no absurdo das vidas.
Antígonas, Bacantes e Balzaquianas
Cleópatras, Hipátias e Sofias,
Almas e corpos de todas as sortes
De uma terra e gênese só suas.
Toda mulher poderia ser minha mãe,
Ou talvez eu, sem nascer, aqui não estivesse,
Para dizer, sabe-se lá, como iria ser,
Sem essa mulher, sem a cor de seus olhos.
Sem sua malemolência no carnaval da Bahia,
Sem me gestar por nove meses e deixar nascer,
Para aqui ser e estar, e pensar quem seria eu
Sem suas paixões de mulher.
Sem seus legítimos desejos de moça,
Sem o batom retocado no banheiro,
Sem o corpo que encantou meu pai
E o genuíno ser em sua subjetividade.
Sem fumar, quem sabe, seu cigarro de filtro amarelo,
Como as figuras da moda em sua época,
Sem fazer tantas faxinas para ganhar seu dinheiro
E alimentar-se de sonhos, néctar da juventude.
Toda mulher poderia ser qualquer coisa,
A partir de si mesma, sem roteiro,
Sonhar seus sonhos e viver eternamente
Para realizá-los infinitas vezes.
Cada uma delas é um ser em si, universo à parte,
A parte de mim, ainda que próxima,
Dadas as circunstâncias da vida,
Do destino que se faz a todos indiferente.
Que ao parir apartado o parto do acaso,
Não se importa sobre os lares e os berços,
Aconchegos, abraços e beijos,
E o futuro, passado e o próprio fim.
Sem essas mulheres, eu nada seria,
Não teria dado atenção às paredes úmidas do orfanato,
Não teria dois apelidos dados pelas freiras,
Que me chamavam de Páris e estrelinha.
Sem essas mulheres, eu nada seria,
Não seria como Páris a fazer uma guerra por uma mulher
E legar a guerra ao irmão, ficando só com a parte boa,
Seria então, quem sabe, uma estrelinha no céu a se esquecer.
Sem essas mulheres, eu nada seria,
Não veria o sol poente, nem dias cinzas,
Não teria namorado nenhuma moça,
Não poderia viver.
Seria como, quem sabe, um espectro a pairar no cosmos,
A aguardar outra paixão, outro coração,
Outro ventre aberto à luz do mundo,
Outra sina e fado, em outra multidão.
Ou talvez nada, não existindo,
Nada diria, em tudo incompetente,
Sobre o sol poente ou dias cinzas,
Sem essas mulheres, eu não existia,
Literalmente.
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