1)
Qual pintor nunca pintou rostos?
Quem com eles nunca se perdeu em devaneios?
Quem nunca se encantou em se encantar?
E o que dizem eles sobre nós?
Que, sem dizer, comunicam-se pelo olhar?
São as feições do inconsciente?
Características ocultadas?
Significam algo além de nossos nomes?
Ou seja: algo além de nada?
Dizem o idioma dos anjos?
Ou trocam gestos de libras,
no gesticular das sobrancelhas?
Será, talvez, como a chama da candeia,
que, abaixo do alqueire, ao se consumir se queima.
O que dizem os rostos sobre seus donos?
Algo sobre seus sentimentos?
Que trazem eles somado às lembranças,
Além das marcas do tempo?
O rosto triste não afirma a razão do lamento
Nem tampouco o feliz, aponta o momento feliz
Não diz o porquê, nem se interessa em dizer
Todos tão diferentes
Todos tão iguais
Nos campos
Nas cidades
Na televisão e nos jornais
O que dizem os rostos na alternância do tempo?
Apenas que a vida é feita de momentos
Nada mais.
2)
Os rostos nada dizem
Mas se comunicam
Choram, olham e sorriem
Temem, tremem e pensam
Se os olhos são a porta da alma
Os rostos são as paredes da casa
Como disse Padre João Maia
Ao bradar a Deus em líricas portuguesas:
“Que as linhas do meu rosto verdadeiro.
Só Tu podes, Senhor, compreendê-las”.
Algo pensa em mim.
Nem meu rosto, nem meu corpo
Sobre isto, algo diz
Ou saberia dizer
Sobre isso, explicar
Entre tantos, morrerei sendo apenas isto:
O reflexo mal visto de uma faísca,
De um vasto fogo que não deixa se apagar.
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