sexta-feira, 10 de maio de 2024

Que dizem os rostos?

1)

Qual pintor nunca pintou rostos?

Quem com eles nunca se perdeu em devaneios?

Quem nunca se encantou em se encantar?

E o que dizem eles sobre nós?

Que, sem dizer, comunicam-se pelo olhar?


São as feições do inconsciente?

Características ocultadas?

Significam algo além de nossos nomes?

Ou seja: algo além de nada?


Dizem o idioma dos anjos?

Ou trocam gestos de libras,

no gesticular das sobrancelhas?

Será, talvez, como a chama da candeia,

que, abaixo do alqueire, ao se consumir se queima.


O que dizem os rostos sobre seus donos?

Algo sobre seus sentimentos?

Que trazem eles somado às lembranças,

Além das marcas do tempo?


O rosto triste não afirma a razão do lamento

Nem tampouco o feliz, aponta o momento feliz

Não diz o porquê, nem se interessa em dizer


Todos tão diferentes

Todos tão iguais

Nos campos

Nas cidades

Na televisão e nos jornais


O que dizem os rostos na alternância do tempo?

Apenas que a vida é feita de momentos


Nada mais.


2)


Os rostos nada dizem

Mas se comunicam

Choram, olham e sorriem

Temem, tremem e pensam


Se os olhos são a porta da alma

Os rostos são as paredes da casa


Como disse Padre João Maia

Ao bradar a Deus em líricas portuguesas:

“Que as linhas do meu rosto verdadeiro. 

Só Tu podes, Senhor, compreendê-las”.


Algo pensa em mim.

Nem meu rosto, nem meu corpo

Sobre isto, algo diz

Ou saberia dizer

Sobre isso, explicar


Entre tantos, morrerei sendo apenas isto:

O reflexo mal visto de uma faísca,

De um vasto fogo que não deixa se apagar.

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