sexta-feira, 10 de maio de 2024

Ainda que eu falasse a língua dos anjos (Lamento de um anjo caído)

Ainda que eu falasse a língua dos anjos,

Teria de abandonar a vida mística.

Não saberia falar senão da práxis

E odiar senão a metafísica.


Meu discurso, embora alienado à linguística,

Tenta fugir da prosa e poesia lírica.

Mas herdei o lirismo lusitano

E as pulsões de um coração indígena.


Herdei também heterônimos

Que não ouso nomear.

Sarcásticos e irônicos,

Eles pretendem me matar.


Meus versos não podem pavonear-se

E frequentemente estão a se contradizer.

Goste ou não, ame-os ou deixe-os,

São risíveis, e não me importarei.


Visto que minha poesia não se rende

Ao frágil paladar de um freguês.

Não tenho tempo para defender ideias,

Pois estou entretido em conhecê-las todas.


Pois aprender é correr contra o tempo

Numa jornada impossível.

É sentir-se sempre, e inevitavelmente,

Em busca do tempo perdido.


Portanto, ainda que eu falasse a língua dos anjos

E o mundo todo soubesse me entender,

Me colocaria a cantar,

Pois nada saberia dizer.


Museu de Artes de Joinville, 2016.

Nenhum comentário:

Postar um comentário