Ainda que eu falasse a língua dos anjos,
Teria de abandonar a vida mística.
Não saberia falar senão da práxis
E odiar senão a metafísica.
Meu discurso, embora alienado à linguística,
Tenta fugir da prosa e poesia lírica.
Mas herdei o lirismo lusitano
E as pulsões de um coração indígena.
Herdei também heterônimos
Que não ouso nomear.
Sarcásticos e irônicos,
Eles pretendem me matar.
Meus versos não podem pavonear-se
E frequentemente estão a se contradizer.
Goste ou não, ame-os ou deixe-os,
São risíveis, e não me importarei.
Visto que minha poesia não se rende
Ao frágil paladar de um freguês.
Não tenho tempo para defender ideias,
Pois estou entretido em conhecê-las todas.
Pois aprender é correr contra o tempo
Numa jornada impossível.
É sentir-se sempre, e inevitavelmente,
Em busca do tempo perdido.
Portanto, ainda que eu falasse a língua dos anjos
E o mundo todo soubesse me entender,
Me colocaria a cantar,
Pois nada saberia dizer.
Museu de Artes de Joinville, 2016.
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