Quisera eu a vida em linhas retas,
Como quem soma e encerra o dia,
Sem sobressaltos, sem arestas,
Sem o excesso que nos desvia.
Mas ela insiste em nós oblíqua,
Em nós se dobra e se desfaz;
Cada escolha é sempre ambígua,
Cada passo perde a paz.
O gesto simples se complica,
O sim carrega um não oculto,
E o tempo, lento, nos explica
Que viver é sempre um tumulto.
Não há fórmula que baste,
Nem manual para existir;
Resta aceitar que o contraste
É o preço exato de sentir.
Quisera a oportunidade,
e defronte vejo a solidão;
mil contas a pagar me cercam,
do homem, hercúlea função.
Quisera tempo para a vida,
mas tenho o tempo ao trabalho;
o dia passa em dívida antiga,
e o corpo cede ao próprio talho.
Quisera um fado mais benévolo,
talvez o futuro permita;
pois de que vale estar à frente do tempo,
quando o presente nos limita?
Nenhum comentário:
Postar um comentário