quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

(Des)reificação

1

Há uma beleza em mim que ninguém sabe,

velada flor que ao vento não se inclina;

e assim me escondo, etéreo na rotina,

sombra que passa e o próprio passo perde.


Sinto-me ausente, o íntimo se abre

num vão silêncio, ausência que domina;

e sonho um rosto, miragem que ilumina,

de um eu que só em mim mesmo existe.


Pois desejo um lugar onde eu resista,

onde o que sou encontre algum sentido

no olhar que acolha aquilo em que persisto.


E, no entanto, o mais belo é não sabido:

quem sou no olhar alheio se despista,

e o meu melhor em mim jaz escondido.


2

Por isso habito o hiato entre livros e vinhos,

jardim suspenso que a vazia forma evita;

ali recolho os ecos de outras vidas

na solidão dos gestos mais mesquinhos.


Procuro abrigo em mínimos carinhos,

no verbo antigo, no silêncio dos astros;

e bebo a noite, lúcida e atroz,

para acalmar os sonhos que definho.


Ocupo assim meus próprios pensamentos,

tecendo em mim o que ninguém escuta,

uma presença à margem dos momentos.


E, enquanto a vida em torno se disputa,

eu me recolho aos íntimos fragmentos

e ergo do hiato a minha forma oculta.


3

No escuro em que me busco, sigo incerto,

tateando o vão das sombras que me escondem;

e os meus sentidos, tímidos, respondem

ao sopro antigo que me quer desperto.


Vivem em mim desejos sem concerto,

vozes que rasam m'águas e não cessam

senão a imagem muda, onde me afundam

os medos que guardava por deserto.


Mas há um chamado, íntimo oráculo,

que rompe o molde pífio e metódico,

e faz do abismo um rito necessário.


E ao me inclinar ao verbo mais simbólico,

ouço o que diz o templo do meu peito:

Modesto, torno-me, enfim, eu mesmo.

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