1
Há uma beleza em mim que ninguém sabe,
velada flor que ao vento não se inclina;
e assim me escondo, etéreo na rotina,
sombra que passa e o próprio passo perde.
Sinto-me ausente, o íntimo se abre
num vão silêncio, ausência que domina;
e sonho um rosto, miragem que ilumina,
de um eu que só em mim mesmo existe.
Pois desejo um lugar onde eu resista,
onde o que sou encontre algum sentido
no olhar que acolha aquilo em que persisto.
E, no entanto, o mais belo é não sabido:
quem sou no olhar alheio se despista,
e o meu melhor em mim jaz escondido.
2
Por isso habito o hiato entre livros e vinhos,
jardim suspenso que a vazia forma evita;
ali recolho os ecos de outras vidas
na solidão dos gestos mais mesquinhos.
Procuro abrigo em mínimos carinhos,
no verbo antigo, no silêncio dos astros;
e bebo a noite, lúcida e atroz,
para acalmar os sonhos que definho.
Ocupo assim meus próprios pensamentos,
tecendo em mim o que ninguém escuta,
uma presença à margem dos momentos.
E, enquanto a vida em torno se disputa,
eu me recolho aos íntimos fragmentos
e ergo do hiato a minha forma oculta.
3
No escuro em que me busco, sigo incerto,
tateando o vão das sombras que me escondem;
e os meus sentidos, tímidos, respondem
ao sopro antigo que me quer desperto.
Vivem em mim desejos sem concerto,
vozes que rasam m'águas e não cessam
senão a imagem muda, onde me afundam
os medos que guardava por deserto.
Mas há um chamado, íntimo oráculo,
que rompe o molde pífio e metódico,
e faz do abismo um rito necessário.
E ao me inclinar ao verbo mais simbólico,
ouço o que diz o templo do meu peito:
Modesto, torno-me, enfim, eu mesmo.
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