Jeanne Moreau caminha pelas ruas como quem sonha acordada, ao som errante do trompete de Miles Davis — que, diante da tela, improvisava cada nota como se traduzisse em música o movimento secreto da alma. O filme é Elevator to the Gallows (1958). Um ano antes, Miles aceitou o convite de Louis Malle e entrou no estúdio com sua banda, sem ensaios, sem partituras, sem um plano: só o instante, a escuta e o sopro. Ali, com poucas indicações harmônicas, nasceu uma gravação histórica — talvez uma das mais belas e intuitivas alianças entre o jazz e o cinema.
Muitas vezes, quando vejo uma mulher, é nesses termos que a percebo: como uma aparição que caminha pela cidade com a mesma intensidade suave e inesgotável, a ser acompanhada pela melodia que Davis tece — livre, mas precisa, envolta numa bruma de mistério. Às vezes, quando perambulo entre avenidas e fragmentos de existência, me sentindo em um filme, sem rumo exato, sinto-me como se fosse essa mulher — ou como deve ser —, pois penso que é nelas que se condensa o enigma do mundo. São elas que caminham, e eu que, sem saber, as sigo com os olhos e o pensamento, como o vigia na canção As Vitrines, de Chico Buarque, catando a poesia que entornam sob o chão.
Minha atenção à mulher parte de uma observação do diferente, do outro — que me interessa não pela idealização, mas como expressão de uma alteridade que desafia minhas próprias categorias e certezas, do que sou, exatamente um homem, tão ridículo quanto um homem. É essa paixão pelo diferente, pela diferença, que estimula a curiosidade e o reconhecimento do plural na experiência humana. Percebi que as mulheres, em seus modos de agir, comunicar e construir relações, operam sob lógicas que, muitas vezes, escapam às estruturas masculinas tradicionais. Essa diferença não é mera oposição binária, mas um campo complexo de significados, práticas e estratégias que merecem ser observadas sem a mediação da idealização.
Desde menino, cultivo uma curiosidade quase devocional por esse universo feminino — que me escapava e fascinava, feito linguagem que se compreende antes de ser aprendida. Era nos gestos, nos risos cúmplices, nas conversas que esbarravam em algo que me parecia sempre além da superfície. Eu não sabia nomear, mas reconhecia ali algo interessante: havia uma delicadeza que não excluía a força, uma liberdade que não se anunciava, apenas se vivia. E talvez seja isso que experimento sempre que vejo uma mulher: um tipo de escuta contemplativa, um desejo de compreender o mundo por esse outro viés.
Algumas vezes, quando estou diante de uma mulher, sinto-me diante da esfinge — não aquela que exige decifrar-lhe o enigma sob ameaça, mas a que convida ao mistério profundo que cativa o desejo, uma atenção que vá além do gesto de despir. O desejo que me move não é de conquista, mas de acesso: não ao corpo que se despe, mas ao mundo que se entrelaça por dentro, à trama sutil que sustenta aquele silêncio, aquela força que não se impõe, mas se afirma na sua própria presença. Há aqui, talvez, uma idealização. Mas é no tocante à busca por aquele estado em que as coisas só podem ser em intimidade, e ao acesso a esse lugar. Lembro também de Budapeste, também de Chico, de linhas onde se admite ouvir "aquela voz" da mulher, que só é ouvida na cama, depois da intimidade. Ou seja, essa outra voz. Não busco repetir o lugar-comum da psicanálise — “o que quer a mulher?” —, mas perguntar-me, com curiosidade legítima, o que é uma mulher — nesse ser profundo —, e como cada uma se constitui, irrepetível. É uma inquietação sem domínio, sem resolução: um impulso de atenção, como quem caminha à beira de um mistério e, em vez de desvendá-lo, deseja habitá-lo.
No que tange à amizade, recentemente assisti a uma entrevista de duas mulheres — daquelas conversas em auditório de TV. Entre risos e confidências, admitiram algo que sempre intuí: que a amizade entre mulheres é de uma intimidade singular, uma teia delicada de subjetividades, mais densa, mais sensível, mais acolhedora do que aquela, muitas vezes seca e contida, que se tece entre os homens. Entre elas, há espaço para a escuta sem defesa, para o gesto que conforta sem razão explícita, para o desabafo que não exige solução. Talvez por isso também me interesse muito a amizade, por si só, com mulheres, e não com homens. E a amizade em si, sem nada a mais. Pois há também coisas que só se dizem a amigos, e que o cônjuge, ou o que valha, não terá acesso.
Talvez por isso tenha me interessado tanto a leitura de Flâneuse, de Lauren Elkin — esse ensaio-vagabundagem que percorre cidades e séculos a partir do passo feminino, das pegadas quase sempre invisibilizadas da mulher que caminha, observa, descobre e ressignifica o espaço urbano. Se o flâneur, como nos ensinou Baudelaire, é o dândi que atravessa a multidão como quem decifra enigmas no asfalto, a flâneuse o faz em silêncio, muitas vezes sob o risco do julgamento, da violência, da interdição. E ainda assim caminha. Elkin escreve sobre mulheres que andam — não por obrigação, mas por desejo. Mulheres que, ao ocupar as ruas, ocupam também uma forma de existir mais plena, menos domesticada. Virginia Woolf, George Sand, Agnès Varda... todas elas converteram o simples ato de andar em resistência, em arte, em modo de escrita. Caminhar, para elas, não era um gesto banal, mas uma forma de pensar o mundo com o próprio corpo.
É nesse passo — que é também o passo do jazz, livre mas atento, errante mas lúcido — que percebo minha fascinação pelas mulheres. Não como objeto, mas como enigma. Como presença que reverbera outras formas de saber e de narrar. Caminham como quem vertem significados. E, longe de, como Lacan, dizer que a mulher não existe — embora compreenda a ideia —, ainda, e mais humildemente, diria que não sei o que é a mulher, e, quanto mais procurei entender, mais me distanciei dessa resposta. Talvez, pois, essa resposta não exista, e não a mulher.
Mas há mais: recentemente, ao ler O homem não existe, de Lígia Gonçalves Diniz, fui confrontado com a fratura dessa figura do homem, que até então me parecia sólida. A autora desmonta a imagem do masculino hegemônico ao revelar seu caráter ficcional, sua fragilidade disfarçada de autoridade, sua incompletude mascarada por mitos. O homem, tal como o romance tradicional o construiu, é uma personagem — e talvez uma das mais frágeis, justamente por se recusar a reconhecer suas fissuras.
Acredito na fluidez do gênero, a partir de Butler, e me considerava "pra-frente". Mas não posso deixar de me interessar pelo universo feminino, e me desinteressar pelo masculino. Simplismente não sei.
Se Miles Davis improvisava sobre Jeanne Moreau caminhando na tela, talvez o que eu faça ao observar essas mulheres seja algo semelhante: improvisar também, com o olhar de estrangeiro, tentando traduzir em palavras o que só se aprende com o corpo em movimento, na escuta do instante. Em outras palavras, tento acompanhar, pois me parece o mais interessante a se fazer da vida.
Talvez seja por isso que, ao vê-las, não vejo apenas corpos ou presenças: vejo um poço a verter. Mas também não generalizo — ou generalizo? Lembro agora da canção de Mautner e Caetano: “Gosto de ficar na praia deitado / Com a cabeça no travesseiro de areia / Olhando coxas gostosas por todo lado / Das mais lindas garotas, também das mais feias / Porque são todas gostosas e sereias / Pro meu olhar de supremo tarado / Tarado.”
Sim, muito provavelmente eu seja somente um tarado divagando. Pode ser. Vou levar isso para a terapia.
Mas o que gostaria de dizer — e penso que não o fiz, pois falar sobre isso beira naturalmente o ridículo, e o é — é que elas caminham, e com elas caminha também um saber do mundo que me escapa, mas me atrai, como quem vai ao cinema e repara nos rostos do público em vez do filme.
Acontece que para mim, essa coisa de religião, Deus, metafísica — nada me interessa. E acho que foi o sofista louco (mas, justamente por isso, interessante) Carl Gustav Jung quem disse que não se pode matar os deuses — apenas substituí-los. Nesse sentido, penso que fiz a melhor escolha. Assim, como um devoto — ou tarado, como queiram — meu olhar as acompanha como o jazz acompanha Jeanne Moreau: catando a poesia que entorna no chão, improvisando em reverência, errante, mas atento — como quem tenta, em vão, tocar o indizível.
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