segunda-feira, 16 de junho de 2025

Oratória para um País que Desaba em Câmera Lenta

Os mapas se rasgam nas mãos dos profetas,

enquanto um deus cansado fuma no parapeito

de um arranha-céu qualquer.


O futuro —

é um arquivo corrompido,

na gaveta de um servidor público em greve.


A história não é ciclo.

É chicote.


E o silêncio, esse luxo,

não cabe nas bocas doentes de fome

nem nos tímpanos

cansados de hinos.


Nas esquinas, os meninos aprendem:

não há Deus no esgoto.

Mas há bala.

E há farda.

E há prazo pra morrer.


O país —

um quintal entulhado

de slogans vencidos,

de promessas mofadas,

de mártires cansaços.


Cantar?

Cantar é cuspir na moldura,

é quebrar o vidro do altar

onde dorme

a suposta neutralidade dos jornais.


Minha voz é um trapo

que rasga os salmos do PIB.


Meu canto é uma fraude.

Mas é nossa.


Um dia…

o chão vai indicar as respostas.

E das crateras brotarão

os nomes verdadeiros das coisas.

Nomes que ardem.


E então, quem sabe,

possam os poetas

calar.

Não por medo,

mas por paz.


Enquanto isso:

toma.

Esse verso é teu.

Usa como quiser:

pra parar um tanque,

pra cobrir um corpo,

ou pra parir outro mundo

num cântico. 

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