Os mapas se rasgam nas mãos dos profetas,
enquanto um deus cansado fuma no parapeito
de um arranha-céu qualquer.
O futuro —
é um arquivo corrompido,
na gaveta de um servidor público em greve.
A história não é ciclo.
É chicote.
E o silêncio, esse luxo,
não cabe nas bocas doentes de fome
nem nos tímpanos
cansados de hinos.
Nas esquinas, os meninos aprendem:
não há Deus no esgoto.
Mas há bala.
E há farda.
E há prazo pra morrer.
O país —
um quintal entulhado
de slogans vencidos,
de promessas mofadas,
de mártires cansaços.
Cantar?
Cantar é cuspir na moldura,
é quebrar o vidro do altar
onde dorme
a suposta neutralidade dos jornais.
Minha voz é um trapo
que rasga os salmos do PIB.
Meu canto é uma fraude.
Mas é nossa.
Um dia…
o chão vai indicar as respostas.
E das crateras brotarão
os nomes verdadeiros das coisas.
Nomes que ardem.
E então, quem sabe,
possam os poetas
calar.
Não por medo,
mas por paz.
Enquanto isso:
toma.
Esse verso é teu.
Usa como quiser:
pra parar um tanque,
pra cobrir um corpo,
ou pra parir outro mundo
num cântico.
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