Preciso aquietar a alma em sobressalto,
que em sombra de si mesma se encarcera.
Recolher-me ao silêncio, como ao salmo
do monge que em clausura persevera.
Recordar que a serenidade é arte,
mas também é vigília — centinela.
É não ser nau à mercê da corrente,
mas barqueiro que ao vento se revela.
Pois entre os fados que me são vedados
há lumes que jamais poderei ter.
E nisso há paz. Em não poder, descanso.
Ao menos isso, sim — posso saber.
Ser nada é graça, em meio ao tumulto:
um grão de areia em vasto desatino.
Sou Ícaro após a queda — mero vulto
rondando o mar do tempo sem destino.
Minhas dívidas? Sísifo que as empurre.
Minhas noites? São de Hipnos o banquete.
E quando enfim cessar meu espírito no tempo,
descansarei no seio deste abismo.
Um dia, serei terra entre as raízes,
alimento discreto de uma flor,
vazio firme que tudo conduz,
fim natural de toda dor.
Que se faça silêncio, que se acalme o peito,
na ausência do ruído, encontro a medida.
Deixo o verso repousar no seu leito,
e sigo tranquilo nesta imensa vida.
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