Lua, minha amante nua nessa noite eterna
Guardiã dos segredos da carne e da alma,
Que em silêncio embriaga e aos poucos acalma,
Com tua luz de prata tão suave e terna.
Teu corpo paira em mim, paixão serena,
Círculo alheio ao tempo, substância de ausência,
Mistério que se esconde, e aos poucos revela,
Na sombra que em meus versos se governa.
Em teu clarão desnudo me abandono,
Como quem nada pede e tudo sente,
Num sonho onde a paixão desata o sono.
Num sonho qual clarão aclara o mistério.
Teu beijo é frio, e ainda assim ardente,
No céu me tomas — sombra em pleno outono,
Amor que em mim é febre permanente.
Luar que nasce em mim qual sol no mundo.
Assim, qual sol no mundo abre o dia,
Tomando, abertos, os meus olhos de assalto.
Esse luar, que habita o mais profundo d’alma,
Acende, qual estrela-d’alva, o seu mais íntimo.
A princípio uma faísca — torna-se intenso fogo;
Em pouco tempo, o sentimento faz-se poderoso.
Fulgura o luar no sertão profundo deste peito
E faz luzir a vida na escuridão de seu entorno.
E se então me torno luz no teu ensejo,
Já não distingo todo o céu do próprio peito.
Em tua sagrada órbita sigo, alheio e eleito,
Deste silêncio e sombra sou teu anjo.
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