Eu e o diabo, debaixo da lua, terça-feira.
No bar, entre goles de conhaque,
Zombamos do mundo com desfaçatez,
Rindo da sorte, do amor e da rua —
Velhos farsantes em noite burlesca.
Ele, eloquente, entorna segredos
Que o tempo guardou por tédio ou despeito,
Histórias de tronos virados em pó, Ozimândias,
Pactos assinados sem ler conteúdos, letras minúsculas
E brindes erguidos aos próprios desejos, desterros.
O relógio, envergonhado, se cala. O diabo também.
Lá fora, o sentido perdeu-se em neblina.
Somos os ecos de um tempo que escapa, mar-além
A guilhotina, o pescoço e a fala,
Sonhando um sonho de casta ladina.
Bailarinos do breu e do perigo,
Eu e o diabo, em paz belicosa,
Rodopiamos ao som da desgraça,
Com um cinismo de rara elegância,
Mirando um céu que nos veda o abrigo.
Eu e o diabo, debaixo da lua, quarta-feira.
Habitamos na terra o paraíso perdido.
Vivemos, na noite, nossa dança,
Ouvimos, na noite, nossa música,
Sonhando um céu a nós proibido.
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