quarta-feira, 4 de junho de 2025

Eu e o diabo debaixo da lua em uma terça-feira

Eu e o diabo, debaixo da lua, terça-feira.

No bar, entre goles de conhaque,

Zombamos do mundo com desfaçatez,

Rindo da sorte, do amor e da rua —

Velhos farsantes em noite burlesca.


Ele, eloquente, entorna segredos

Que o tempo guardou por tédio ou despeito,

Histórias de tronos virados em pó, Ozimândias,

Pactos assinados sem ler conteúdos, letras minúsculas 

E brindes erguidos aos próprios desejos, desterros.


O relógio, envergonhado, se cala. O diabo também.

Lá fora, o sentido perdeu-se em neblina.

Somos os ecos de um tempo que escapa, mar-além

A guilhotina, o pescoço e a fala,

Sonhando um sonho de casta ladina.


Bailarinos do breu e do perigo,

Eu e o diabo, em paz belicosa,

Rodopiamos ao som da desgraça,

Com um cinismo de rara elegância,

Mirando um céu que nos veda o abrigo.


Eu e o diabo, debaixo da lua, quarta-feira.

Habitamos na terra o paraíso perdido.

Vivemos, na noite, nossa dança,

Ouvimos, na noite, nossa música,

Sonhando um céu a nós proibido.

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