(sobre a ayahuasca)
Cipó do Homem Morto, corda do além,
Enrosca na alma, te puxa pra quem
Te espera no fundo do próprio espelho —
Um deus disfarçado no teu pesadelo.
É caapi, a raiz o caule do masculino,
Com chacrona, a folha do feminino,
Mistério que ferve da natureza a paixão,
Abrindo portais no teu coração.
Te amarra e carrega pelo universo adentro,
No dorso da noite, no voo sem centro,
Caminho e segredo da mata sombria,
Que acende em silêncio a tua agonia.
Sorvido em feitiço de lenda e de lodo,
Te desmancha o nome, te mostra o todo,
É morte pequena com gosto de seiva,
É cobra que canta, é estrela que leva.
Teu íntimo escuro se veste de fogo,
Teu riso é vertigem, teu pranto é rogo.
A alma, de joelhos, se vê despida
Na beira da selva, entre a morte e a vida.
O Cipó do homem morto faz morrer o ego,
Num transe que sangra miragens num rito.
E o que resta em pé, depois da explosão,
É só o silêncio do teu coração.
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