quarta-feira, 4 de junho de 2025

Cipó do Homem Morto

(sobre a ayahuasca)

Cipó do Homem Morto, corda do além,

Enrosca na alma, te puxa pra quem

Te espera no fundo do próprio espelho —

Um deus disfarçado no teu pesadelo.


É caapi, a raiz o caule do masculino,

Com chacrona, a folha do feminino,

Mistério que ferve da natureza a paixão,

Abrindo portais no teu coração.


Te amarra e carrega pelo universo adentro,

No dorso da noite, no voo sem centro,

Caminho e segredo da mata sombria,

Que acende em silêncio a tua agonia.


Sorvido em feitiço de lenda e de lodo,

Te desmancha o nome, te mostra o todo,

É morte pequena com gosto de seiva,

É cobra que canta, é estrela que leva.


Teu íntimo escuro se veste de fogo,

Teu riso é vertigem, teu pranto é rogo.

A alma, de joelhos, se vê despida

Na beira da selva, entre a morte e a vida.


O Cipó do homem morto faz morrer o ego,

Num transe que sangra miragens num rito.

E o que resta em pé, depois da explosão,

É só o silêncio do teu coração.

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