quinta-feira, 5 de junho de 2025

Contra as Fortunas: Glosas Marginais Sobre a Ideologia da Riqueza no Capitalismo Tardio

A Lei Geral da Acumulação

A riqueza de poucos não é, como gostam de fazer crer os defensores do liberalismo, fruto exclusivo da genialidade ou do mérito individual. Ao contrário, é resultado direto de um processo histórico e estrutural que subordina a vida da maioria às exigências da acumulação privada. O capitalismo, enquanto modo de produção dominante, depende da desigualdade para funcionar. A concentração de renda não é um efeito colateral: é o motor do sistema.

Karl Marx, ao expor a Lei Geral da Acumulação Capitalista n'O Capital, demonstra que, à medida que o capital se acumula nas mãos dos capitalistas, aumenta também o exército industrial de reserva — ou seja, a massa de trabalhadores desempregados ou subempregados, sempre disponíveis para aceitar condições cada vez mais degradantes de trabalho. Assim, a riqueza crescente de uma minoria é inseparável da miséria progressiva da maioria.

Trata-se de uma constatação matemática: a riqueza é construída através do trabalho. Quantos terão de trabalhar para que um viva do lucro? A pergunta não é retórica, tampouco ideológica: é aritmética. Se toda a riqueza é produto do trabalho humano, então o lucro — aquilo que excede o valor do trabalho pago — só pode existir quando alguém trabalha mais do que recebe, para que outro receba sem trabalhar. O lucro de um é, necessariamente, o fruto do trabalho de muitos.

Pensemos: para que uma única pessoa acumule bilhões, quantas outras tiveram que abrir mão do próprio tempo, da própria saúde, da própria dignidade? Quantas horas invisíveis de faxinas, transportes, entregas, atendimentos, construções, programações, digitações e reuniões foram necessárias para que um sujeito, sentado no topo da pirâmide, viva dos juros e das ações?

A equação é simples: quanto mais lucro se extrai, mais trabalho se exige — e menos se remunera. O sistema se equilibra pela desproporção. Lucro não é apenas renda, é a institucionalização de uma desigualdade permanente. Para que haja uma classe que viva da propriedade, da renda passiva e dos dividendos, é necessário haver outra classe que viva do salário — e, ainda assim, que sustente o capital de outros com seu esforço. Portanto, a questão não é apenas “quem lucra?”, mas “quem permite o lucro?”. Cada fortuna acumulada é um mapa oculto da exploração alheia. A matemática da acumulação revela uma verdade moral: enquanto alguns poucos descansam sobre cifras, muitos carregam o peso do mundo nas costas. O capitalismo nos ensina a admirar quem lucra, mas raramente nos permite perguntar: quantas vidas estão sendo gastas para sustentar uma fortuna?

Essa lei revela uma verdade brutal: para que alguns poucos se tornem bilionários, é necessário que a maioria viva sob permanente precarização das condições de vida, com jornadas exaustivas, salários reduzidos, habitação precária, acesso limitado à saúde e à educação. A vida digna de uns é conquistada à custa da indignidade de muitos. A liberdade de um bilionário para acumular indefinidamente seu capital implica na ausência de liberdade real para milhões de trabalhadores que sobrevivem vendendo sua força de trabalho em condições que negam qualquer horizonte de bem-estar.

A retórica da meritocracia serve para encobrir essa lógica perversa. Mas a realidade é concreta: nenhum bilionário acumula fortunas sem explorar uma multidão. As fortunas mais admiradas são construídas com base em cadeias produtivas que exploram mão de obra barata, degradam o meio ambiente e corrompem a política. A naturalização dessa ordem econômica — que chama de sucesso o resultado da exploração — é uma das maiores violências simbólicas do nosso tempo.

O capitalismo não só permite essa desigualdade estrutural: ele exige. Ele não se sustenta sem uma massa que viva à margem, que aceite salários mínimos, que se submeta à informalidade e à insegurança. É um sistema que organiza a sociedade para produzir riqueza nas mãos de poucos e sofrimento nas costas de muitos. É uma estrutura que impõe uma vida livre para poucos e uma miséria livre para todos os outros

Portanto, o problema não é moral — não se trata de bilionários “bons” ou “maus” —, mas estrutural. Enquanto houver bilionários, não haverá justiça social. A existência de fortunas pessoais de dezenas ou centenas de bilhões é, em si, uma negação da democracia, da igualdade e da dignidade da vida humana.


Apologia da Divisão Social do Trabalho e das Fortunas

Será que, se a população pudesse acessar a verdade da Lei Geral da Acumulação Capitalista — ainda hoje um grande mistério mascarado por ideologias —, aceitaria essa condição?

A história da dominação não é apenas a história da força bruta. É, sobretudo, a história da ocultação. O que Marx chamou de Lei Geral da Acumulação Capitalista permanece, até hoje, envolta por véus ideológicos que a tornam invisível à maioria dos que a sustentam com o próprio corpo. Essa lei — segundo a qual, quanto maior a acumulação do capital em uma ponta, maior a miséria e a precarização na outra — não é ensinada nas escolas, nem estampada nos jornais, tampouco explicada nos discursos oficiais sobre crescimento, sucesso ou prosperidade.

E não é por acaso. Se essa engrenagem fosse desvelada em sua nudez brutal — se cada trabalhador compreendesse que seu esforço cotidiano não apenas produz riqueza, mas produz a própria desigualdade que o oprime, que seu suor sustenta a ociosidade rentista de uma minoria — talvez a revolta fosse não só legítima, mas inevitável.

A ideologia cumpre aí sua função mais perversa: naturaliza o absurdo, transforma a exploração em vocação, a miséria em responsabilidade individual, e o lucro em mérito. A pobreza passa a ser vista como falha, não como consequência; o desemprego, como falta de esforço, e não como necessidade sistêmica de um "exército de reserva" para pressionar os salários. A alienação não é apenas a ignorância de uma lei econômica: é a cisão entre quem produz e quem entende o que está produzindo.

O mistério do capital, como dizia Marx, reside justamente na forma como ele se apresenta como algo natural e autônomo, como se o dinheiro “rendesse” por si mesmo, quando, na verdade, é a força de trabalho que o multiplica. Se a população em massa tivesse acesso consciente e crítico a essa lógica — se não apenas soubesse, mas compreendesse concretamente que o luxo de poucos é sustentado pela vida sacrificada de muitos —, a aceitação passiva da ordem vigente talvez se desfizesse como névoa ao nascer do sol.

Mas o que se vê é o contrário: o sistema educa para a obediência, estimula a competição entre os próprios explorados, vende o sonho da ascensão individual como forma de desviar o olhar da estrutura coletiva. O pobre almeja ser rico, não acabar com a pobreza. A crítica radical é trocada pela esperança meritocrática. É a força da ideologia: manter intacta a estrutura, mesmo quando tudo nela grita por mudança.

A pergunta, portanto, não é apenas "se soubessem, aceitariam?", mas: o que está sendo feito para que não saibam? A resposta a isso é a chave para compreender por que o sistema permanece de pé — não por sua justiça, mas por sua capacidade de se esconder atrás do mito da liberdade individual.

Mas que se imagine, agora, uma sociedade que não elimine as diferenças, mas as organize em favor do bem comum. Que se valorize não a acumulação privada, mas a partilha social. A divisão social das fortunas não significa empobrecer os ricos, mas libertar a riqueza do cárcere da propriedade privada e devolvê-la à sua função coletiva: promover a vida.

A riqueza é produto do trabalho coletivo. Nenhum empresário, por mais brilhante, constrói um império sozinho. São os trabalhadores, os serviços públicos, os saberes acumulados por gerações, os recursos naturais — todos bens comuns — que tornam possível qualquer empreendimento. Logo, é justo que os frutos dessa produção sejam redistribuídos de forma equitativa.

Dividir socialmente as fortunas significa investir em saúde pública de qualidade, em educação gratuita e universal, em moradia digna, em acesso pleno à cultura, à mobilidade, ao tempo livre. Significa garantir que o talento de alguém nascido na periferia tenha as mesmas condições de florescer que aquele de alguém nascido em bairros nobres. Significa respeitar o valor do trabalho de todos.

A apologia da divisão das fortunas é, portanto, uma apologia da civilização. É a recusa de um sistema que celebra o luxo de alguns enquanto ignora a fome de muitos. É a defesa de um novo contrato social baseado não na dominação, mas na solidariedade. E, sobretudo, é a afirmação de que a vida humana vale mais que qualquer índice da bolsa de valores.

A divisão de classes não é um desdobramento espontâneo da natureza humana, tampouco consequência meritocrática da distribuição de talentos ou esforços. Pelo contrário, sua origem está historicamente vinculada a processos materiais de dominação, fundados no uso da força militar, do aparato jurídico e da violência simbólica, especialmente desde o advento do colonialismo moderno. Trata-se de uma realidade empiricamente constatável, e teoricamente desenvolvida por Karl Marx, sobretudo em sua análise sobre o chamado processo de acumulação primitiva.

Como destaca Marx no Livro I de O Capital, o capital não se origina da poupança dos laboriosos, mas da expropriação violenta das terras comunais na Inglaterra, da pilhagem sistemática da América Latina e da África, e da escravização racializada de milhões. A riqueza dos grandes impérios europeus — e posteriormente do capitalismo financeiro global — foi construída a partir da negação da vida de outros povos e do monopólio do acesso aos meios de produção. Não se trata, portanto, de mérito, mas de herança de privilégios forjados na violência estrutural.

A consolidação da classe burguesa, como aponta Ellen Meiksins Wood, foi inseparável da construção de um Estado legal-burocrático que assegurasse a propriedade privada como valor jurídico absoluto, mesmo que esta tivesse origem na usurpação. Assim, as leis foram moldadas para conservar a desigualdade, ao invés de corrigi-la. O mérito, nesse contexto, constitui um dispositivo ideológico funcional ao sistema, como apontou Pierre Bourdieu, pois mascara as condições materiais desiguais de partida e reproduz o mito da ascensão individual como possibilidade universal.

Desvelar a origem violenta da desigualdade de classes é fundamental para desmontar o discurso da meritocracia, que culpabiliza os pobres por sua própria pobreza, ao mesmo tempo que absolutiza como justos os privilégios de quem apenas herdou a pilhagem acumulada ao longo de séculos.


O Luxo e o Lixo

No interior do modo de produção capitalista, há uma obscena inversão de valores: aquilo que deveria ser meio para o bem comum — como a produção de riqueza social — se torna fim privado e excludente. O luxo, nesse sentido, não representa um avanço civilizatório, mas antes a sofisticação da barbárie: a possibilidade de uma minoria usufruir excessivamente do que foi produzido pelo trabalho coletivo de uma maioria que mal sobrevive.

A ostentação de bens de altíssimo valor simbólico e mercadológico — como joias, iates ou vinhos raros — se sustenta sobre uma base de exploração, invisível à vista dos que consomem, mas concreta na experiência dos que produzem. Essa é a natureza da fetichização da mercadoria, como descrita por Marx: o objeto adquire um valor autônomo, desconectado do trabalho humano que o gerou.

Tomemos como exemplo três vinhos considerados entre os mais caros do mundo:

O Domaine de la Romanée-Conti (DRC) da Borgonha, com garrafas chegando a US$ 20.000;

O Château Lafite Rothschild, frequentemente leiloado por US$ 5.000 ou mais por garrafa;

O Château Mouton Rothschild, com edições especiais ultrapassando US$ 3.000.

Se uma única garrafa de DRC fosse convertida em remuneração popular, digamos, numa cerveja simples de R$ 5,00 para um operário de fábrica após o expediente, o valor de uma garrafa de US$ 20.000 (cerca de R$ 106.000) pagaria 21.200 cervejas. Ou seja, o equivalente a uma cerveja por dia para quase 60 anos de trabalho, ou para mil trabalhadores por quase um mês. E isso apenas com uma garrafa.

Esse cálculo é mais do que alegórico: ele materializa a distância brutal entre o mundo dos que consomem o luxo e o dos que o tornam possível. Cada garrafa caríssima representa milhares de horas de trabalho alheio, mal pago ou invisibilizado, e a negação cotidiana de acesso ao lazer, à saúde e à dignidade para os que produzem.

E esse descompasso se repete de maneira ainda mais brutal em outras expressões do luxo. Vejamos:

Relógio Patek Philippe Grandmaster Chime (Ref. 6300A-010)

Valor de mercado: cerca de US$ 31 milhões (R$ 165 milhões).

Com esse valor, seria possível pagar um salário-mínimo brasileiro (R$ 1.412,00) a mais de 116 mil pessoas por um mês inteiro, ou a cerca de 9.700 trabalhadores por um ano.

Esse único item no pulso de um bilionário poderia sustentar uma cidade inteira de trabalhadores pobres.

Mansão ‘The One’ – Bel Air, Los Angeles

Vendida por US$ 141 milhões (cerca de R$ 750 milhões).

Poderia financiar a construção de 7.500 casas populares do programa Minha Casa Minha Vida (considerando o custo médio de R$ 100.000 por unidade), abrigando cerca de 30.000 pessoas com dignidade habitacional.

Uma só residência luxuosa representa, portanto, a negação concreta do direito à moradia para milhares de famílias.

3. Iate Eclipse, de Roman Abramovich

Valor estimado: US$ 700 milhões (R$ 3,7 bilhões).

Com essa quantia, poderia ser financiada a aquisição de mais de 1,5 bilhão de cestas básicas de R$ 240,00, o que significaria alimentar cerca de 10 milhões de pessoas durante meio ano.

Enquanto um bilionário navega pelos mares com pista de pouso para helicóptero, milhões passam fome nas periferias urbanas e zonas rurais.

Esses números não são apenas escandalosos — são indiciários de uma estrutura de mundo profundamente perversa, onde o luxo não é símbolo de progresso, mas a concretização de um roubo legalizado da riqueza social. Cada objeto de luxo é uma cifra da miséria alheia.

Se o mérito fosse medido pela contribuição à vida coletiva, quem deveria estar no centro das homenagens e recompensas seriam os trabalhadores que acordam antes do sol, que alimentam, limpam, constroem e cuidam. O sistema atual, porém, reconhece os herdeiros e financistas, e esmaga os verdadeiros criadores de valor.

Neste contexto, é urgente um giro copernicano na concepção de mérito. A centralidade da valorização social precisa deslocar-se dos herdeiros do capital — que acumulam não por criação, mas por apropriação — e se direcionar aos que verdadeiramente criam: os trabalhadores, camponeses, técnicos, professores, enfermeiros, garis, operários, cozinheiras, cuidadores. É deles que nasce toda riqueza.

O verdadeiro motor do desenvolvimento não é o investidor especulativo, nem o detentor de ativos financeiros, mas o trabalhador que dá forma, sentido e valor à produção. Um sistema que concentra reconhecimento e recursos apenas em quem ostenta, ao mesmo tempo que transforma em lixo a vida de quem trabalha, é um sistema doente — e sua perpetuação não é sinal de mérito, mas de falência ética e estrutural.

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