segunda-feira, 5 de maio de 2025

Um Tango Aracnídeo

I

Tece.

Não com linha —

com presságio.

Cada fio um gesto,

cada nó, linguagem.

Pisa o vácuo com a certeza do vinco,

desenha o abismo em arabesco extinto.


II

Avança.

Gira.

Finge que escuta.

O silêncio é seu par.

O espaço, sua flauta muda.


III

Toda teia é pauta:

cifra do compasso cego

onde o tempo pisa torto

e o desejo dança inteiro.


IV

Ela espera.

Sempre dança primeiro.

O outro — a presa —

segue o roteiro.


V

O tango não perdoa erro.

Quem hesita, prende-se.

Quem olha, cai.

O artifício é claro:

quanto mais belo, mais trai.


VI

Tece.

Não com pressa —

com precisão.

A teia é música.

E a morte,

refrão.

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