I
Tece.
Não com linha —
com presságio.
Cada fio um gesto,
cada nó, linguagem.
Pisa o vácuo com a certeza do vinco,
desenha o abismo em arabesco extinto.
II
Avança.
Gira.
Finge que escuta.
O silêncio é seu par.
O espaço, sua flauta muda.
III
Toda teia é pauta:
cifra do compasso cego
onde o tempo pisa torto
e o desejo dança inteiro.
IV
Ela espera.
Sempre dança primeiro.
O outro — a presa —
segue o roteiro.
V
O tango não perdoa erro.
Quem hesita, prende-se.
Quem olha, cai.
O artifício é claro:
quanto mais belo, mais trai.
VI
Tece.
Não com pressa —
com precisão.
A teia é música.
E a morte,
refrão.
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