Foi num bar que me disseram — e ouvi errado —
que a vida é causo e acaso, no ato falho
em que foi dito caos e acaso, tipo ato–efeito:
a ideia era algo aleatório e dialético.
Mas lembrei logo — não de Hegel,
mas dos causos contados por Boldrin —
e pensei em todo o acaso dessa vida
que nos levou, naquela noite, até ali.
Comemoramos esse vão aleatório,
e algo como “graças a Deus” ouvi,
porque poderíamos estar em outro canto,
com falange e em outro país.
E a conclusão orbitou em narrativas:
de que essa era uma dádiva, um alibi,
que, muito embora as almas sejam cativas
do acidental, naquela noite estávamos ali.
Poderia ser qualquer lugar, outra gente,
outro idioma, outro movimento, e lua
outro ser e tempo — ou ser e nada —,
mas éramos nós ali, naquela noite.
Então, em meu ato falho, mal entendido,
compreendo uma filosofia inteira:
de que sobrevive ao aleatório vivido
histórias de toda uma existência;
e que, embora os desencontros existam,
muita coisa sobrevive no final,
e que, entre todos os artífices,
somos nós que construímos o real.
E dessa construção restam histórias,
para contar no bar entre os amigos,
e recordar o que há de especial
do que ficou no coração de tudo isso.
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