segunda-feira, 5 de maio de 2025

Causo e Acaso

Foi num bar que me disseram — e ouvi errado —

que a vida é causo e acaso, no ato falho

em que foi dito caos e acaso, tipo ato–efeito:

a ideia era algo aleatório e dialético.


Mas lembrei logo — não de Hegel,

mas dos causos contados por Boldrin —

e pensei em todo o acaso dessa vida

que nos levou, naquela noite, até ali.


Comemoramos esse vão aleatório,

e algo como “graças a Deus” ouvi,

porque poderíamos estar em outro canto,

com falange e em outro país.


E a conclusão orbitou em narrativas:

de que essa era uma dádiva, um alibi,

que, muito embora as almas sejam cativas

do acidental, naquela noite estávamos ali.


Poderia ser qualquer lugar, outra gente,

outro idioma, outro movimento, e lua

outro ser e tempo — ou ser e nada —,

mas éramos nós ali, naquela noite.


Então, em meu ato falho, mal entendido,

compreendo uma filosofia inteira:

de que sobrevive ao aleatório vivido

histórias de toda uma existência;


e que, embora os desencontros existam,

muita coisa sobrevive no final,

e que, entre todos os artífices,

somos nós que construímos o real.


E dessa construção restam histórias,

para contar no bar entre os amigos,

e recordar o que há de especial

do que ficou no coração de tudo isso.


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