Trilhos iguais me levam toda aurora,
ao mesmo gesto, à máquina sem rosto.
No tempo alheio, calo o meu desgosto,
e o pouco que era meu se vai embora.
A mente morre — e o lucro se alimenta
cumprindo o preço do dever imposto.
O mundo exige um riso sempre exposto,
mas dentro em mim, a criação implora.
Criaram um deus chamado produção,
vendi meu fogo em troca de salário,
traí meu sonho em nome da razão.
Porém em mim resiste um relicário:
um gesto antigo em forma de canção,
sonhando um mundo livre imaginário.
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