As luzes passam — ninguém me vê,
um vulto mudo entre o neon.
A cidade gira sem porquê,
e eu me dissolvo no sem-tom.
As vozes soam como o mar
por trás de um vidro que embaçou.
Tento tocar, tento alcançar,
mas tudo escapa onde estou.
Sou só um ponto em órbita lenta,
um satélite em redor do vão;
o peito cheio, a alma cinzenta,
sem chão, sem nome, sem canção.
Eu falo, e o mundo não responde.
Eu grito, e soa como um eco.
A solidão vem, senta e esconde
meu rosto dentro de um boneco.
Às vezes sonho um lar distante,
com mãos que tocam sem temor...
Mas tudo é sombra delirante,
tudo é memória sem calor.
Sou feito antena em céu fechado,
buscando sinais de algum lugar,
num vão silêncio imaculado
onde o amor tenta pulsar.
Eu amo, sim, mas de tão longe
que a luz demora a me alcançar.
Meu peito é cosmos sem horizonte,
é céu que aprende a esperar.
Sinto, e sentir é como neve
que cai sem peso, em combustão.
Não sei o nome — mas é breve
esse calor no coração.
Eu giro em torno do que perco,
sou órbita de um não ter fim;
mas algo brilha quando cerco
o que escurece dentro em mim.
Talvez o mundo esteja em ruína,
talvez não haja mais lugar...
mas há em mim a voz que ensina
que é meu o amor que fui buscar.
Encontro enfim no meu vazio
o objeto da devoção —
sou satélite, sou navio,
sou solitário... e multidão.
Mas...
Agora entendo: o amor que me consome
não clama mais por rosto ou direção —
pois ao buscar, desprende-se de nome
e habita inteiro o centro da afeição.
Transmuta-se o amador na cousa amada,
por força do pensar que tanto ardeu;
e assim, não resta mais jornada:
em mim se fez aquilo que era seu.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Só pode, enfim, repouso, ou nada —
pois nela já se pôs a se encontrar.
Mas esta ideia — etérea, luz tamanha —
como acidente habita o que é sujeito,
e assim minha alma a sua forma ganha,
e o amor que sou, já puro, sem defeito,
na forma busca a paz que a dor estranha,
feito matéria à espera de seu leito.
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