sexta-feira, 9 de maio de 2025

Satélites

As luzes passam — ninguém me vê,

um vulto mudo entre o neon.

A cidade gira sem porquê,

e eu me dissolvo no sem-tom.


As vozes soam como o mar

por trás de um vidro que embaçou.

Tento tocar, tento alcançar,

mas tudo escapa onde estou.


Sou só um ponto em órbita lenta,

um satélite em redor do vão;

o peito cheio, a alma cinzenta,

sem chão, sem nome, sem canção.


Eu falo, e o mundo não responde.

Eu grito, e soa como um eco.

A solidão vem, senta e esconde

meu rosto dentro de um boneco.


Às vezes sonho um lar distante,

com mãos que tocam sem temor...

Mas tudo é sombra delirante,

tudo é memória sem calor.


Sou feito antena em céu fechado,

buscando sinais de algum lugar,

num vão silêncio imaculado

onde o amor tenta pulsar.


Eu amo, sim, mas de tão longe

que a luz demora a me alcançar.

Meu peito é cosmos sem horizonte,

é céu que aprende a esperar.


Sinto, e sentir é como neve

que cai sem peso, em combustão.

Não sei o nome — mas é breve

esse calor no coração.


Eu giro em torno do que perco,

sou órbita de um não ter fim;

mas algo brilha quando cerco

o que escurece dentro em mim.


Talvez o mundo esteja em ruína,

talvez não haja mais lugar...

mas há em mim a voz que ensina

que é meu o amor que fui buscar.


Encontro enfim no meu vazio

o objeto da devoção —

sou satélite, sou navio,

sou solitário... e multidão.


Mas...


Agora entendo: o amor que me consome

não clama mais por rosto ou direção —

pois ao buscar, desprende-se de nome

e habita inteiro o centro da afeição.


Transmuta-se o amador na cousa amada,

por força do pensar que tanto ardeu;

e assim, não resta mais jornada:

em mim se fez aquilo que era seu.


Se nela está minha alma transformada,

que mais deseja o corpo de alcançar?

Só pode, enfim, repouso, ou nada —

pois nela já se pôs a se encontrar.


Mas esta ideia — etérea, luz tamanha —

como acidente habita o que é sujeito,

e assim minha alma a sua forma ganha,


e o amor que sou, já puro, sem defeito,

na forma busca a paz que a dor estranha,

feito matéria à espera de seu leito.


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