Por um velho marujo condenado ao fim do mundo
Oh, Dimas santo, mártir do patíbulo,
Que ao lado do Senhor findaste os dias,
Ladrão, sim, mas de peito veraz, sensível,
Que viu no Cristo as chaves da alegria.
Por mil galeões saqueei, sem remorso,
Na turva espuma o ouro, o vinho e a flor;
Mas nunca, ó Dimas, fora o meu esforço
Maior que o fardo atado à minha dor.
Carrego o sal da culpa em cada ruga,
Meu corpo é mapa em carne de pecado;
Mas sei que ao céu conduz a mesma fuga
Que outrora abriste em fé, crucificado.
Não peço trono em palmas celestiais,
Nem coro de arcanjos em meu porvir —
Apenas, quando os sinos soar mais,
Um canto em paz, sem grilhões por ouvir.
Não foi o vício a me lançar no crime,
Nem torpe inclinação do coração;
Mas sim a lei que aos poucos legitime
Que uns comam pão — e os outros, ilusão.
A espada erguida em nome da partilha
Fez reis, senhores, servos, degredados;
Não há cadeia sem cerca que humilha,
Nem ladrão sem haveres usurpados.
Chamaram-me pirata, vil bandido —
Mas vi mais roubo em trono e tribunal!
Nas mãos dos ricos, o furto é bem vestido;
Nas dos famintos, chamam-no de mal.
Ó Dimas, tu que viste na agonia
Que o céu não é só para os “de bem”:
Se a cruz da História pesa todo dia,
Roubá-la é gesto humano também.
Na nau do mundo, a âncora é mentira;
A rota, escrita em sangue e ambição.
Mas tu, bom santo, és farol que ainda mira
O mar comum da nossa redenção.
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