Quem afia a guilhotina ao entardecer,
enquanto a praça ensaia um novo rei?
Quem mede o pulso, o sangue a escorrer,
na pedra bruta onde a justiça é lei?
Quem lubrifica a lâmina que cai
com óleo negro extraído do poder?
Quem crê que o fio, ao punir um algoz,
não volte um dia a lhe reconhecer?
Quem dita a hora exata do carrasco,
quando o silêncio é mais feroz que o grito?
E a multidão, em êxtase e fracasso,
grava o espetáculo num rito aflito.
Quem forja a voz que clama por justiça,
mas vende a espada ao peso da mentira?
Quem finge erguer a pátria da cobiça
e ri, de longe, enquanto os olhos vira?
Se há mão que afia, há punho que ordena.
Se há dor no corte, há riso que o acolha.
O aço brilha — e nunca é por acaso:
quem afia a guilhotina...
se vê na lâmina espelhado.
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