quarta-feira, 14 de maio de 2025

Quem afia a guilhotina?

Quem afia a guilhotina ao entardecer,

enquanto a praça ensaia um novo rei?

Quem mede o pulso, o sangue a escorrer,

na pedra bruta onde a justiça é lei?


Quem lubrifica a lâmina que cai

com óleo negro extraído do poder?

Quem crê que o fio, ao punir um algoz,

não volte um dia a lhe reconhecer?


Quem dita a hora exata do carrasco,

quando o silêncio é mais feroz que o grito?

E a multidão, em êxtase e fracasso,

grava o espetáculo num rito aflito.


Quem forja a voz que clama por justiça,

mas vende a espada ao peso da mentira?

Quem finge erguer a pátria da cobiça

e ri, de longe, enquanto os olhos vira?


Se há mão que afia, há punho que ordena.

Se há dor no corte, há riso que o acolha.

O aço brilha — e nunca é por acaso:

quem afia a guilhotina... 

se vê na lâmina espelhado.

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